Fotografia:
O homem que morde o cão

Se o cão morde um homem, não há notícia. Se, ao contrário, um homem morde um cão, aí já há notícia. O exemplo é velho e serve para dar conta de uma cultura jornalística que tende a escolher preferencialmente como matéria noticiosa o insólito, o inesperado, aquilo que perturba uma ordem normal e previsível.

N/D
12 Jan 2004

O que vale para as matérias que os jornalistas trazem a público também vale quando “o homem que morde o cão” se refere ao próprio jornalismo e às empresas e instituições que lhe dão suporte e visibilidade.
Mais uma vez, nestes dias conturbados e inquietantes que vivemos, o jornalismo se tornou, ele próprio, motivo de notícia, com a mais recente chamada à pedra feita pelo Presidente da República.

De facto, o jornalismo, que teve um papel decisivo na divulgação do escândalo, precisa de activar todos os mecanismos de vigilância e auto-regulação que possui, para não sair descredibilizado de processos complexos e ardilosos como este é. Distinguir, em cada momento, o que é essencial do que é acessório; reconhecer o papel específico de cada instituição ou instância na abordagem do caso; e procurar acautelar os direitos de todos e o interesse público é tarefa que não é certamente fácil.

Quando Jorge Sampaio interveio da primeira vez sobre este caso, pareceu-me – e escrevi-o – que ele se coibiu de fazer aos media um apelo com igual veemência à que teve para com os agentes da justiça. Desta vez – e compreendendo, embora que o presidente se sentisse ofendido pelo envolvimento do seu nome – quer-me parecer que, ao particularizar a sua veemência num caso concreto que me parece no mínimo discutível, fragilizou um pouco o seu magistério de influência.

A cobertura jornalística do escândalo da Casa Pia tem conhecido abusos evidentes. Tem havido meios de comunicação que transcrevem e difundem com espalhafato, inclusive em suplementos especiais, cópia de partes do processo em segredo de justiça, fazendo, por vezes, o jogo de uma das partes.

Ou que discorrem pormenorizadamente sobre sinais e características das partes íntimas deste ou daquele implicado. E sobretudo que esquecem que, a clamar justiça, estão crianças que a sociedade confiou ao cuidado do Estado. Ora este tipo de práticas não pode ser colocado ao mesmo nível da divulgação de factos preocupantes eventualmente indiciadores de enviesamentos que podem comprometer a credibilidade do sistema judicial. Neste caso, é pelo menos discutível se um órgão de comunicação social, perante o dilema de dois direitos em confronto, não pode, justificadamente, optar pelo caminho da publicitação. O silêncio era mais fácil. Passaria por aí o interesse público?




Notícias relacionadas


Scroll Up