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A revolta do pão

Nós todos sabemos que no mês de Janeiro de cada ano todas as coisas sobem de preço. É já um ritual. Sobe a água, sobem os combustíveis, a electricidade, os transportes, etc., etc. Sobem as coisas mas infelizmente não sobem os ordenados, ou se sobem não chegam para cobrir essas subidas, dizem os sindicatos e a gente verifica que é verdade.

N/D
12 Jan 2004

É assim e a sociedade portuguesa, naquela paz de alma que é também abulia, já tem isto como adquirido e fecha-se em si mesma o que o mesmo é dizer, aguenta, geme e não refila. Mas a anunciada subida do pão, o alimento que vai à mesa de todos nós, mas muito especialmente à mesa das crianças, a confirmarem-se as subidas anunciadas de 25 ou 35 por cento, vai começar a faltar na toalha dos mais pobres. Já lhe tiraram o bacalhau, a sardinha e agora tiram-lhe o pão e depois a água… que mais lhe poderão tirar? Jamais podemos dizer com pena de condenado: está a pão e água; teremos de dizer: está sem pão e com pouca água. Esta base alimentar portuguesa passa a ser privilégio de alguns.
À mesa dos ricos o pão sempre sobejou. Certamente vamos ter de repartir um pão por duas ou três crianças como no tempo dos nossos avós se fazia com a sardinha. Teremos que deixar de dizer nem só de pão vive o homem e passarmos a dizer: nem ao menos de pão vive o homem. Esta loucura de subida do preço do pão está a determinar uma revolta generalizada. Talvez silenciosa, pacífica até ao momento (e até quando?) mas com expressão significativa na harmonia social. Não há que estranhar se vier a ter repercussão a nível político. Por igual motivo começou a Revolução Francesa e deu o que a história conta. Onde não há pão todos berram e ninguém tem razão – isto, que parece ter sido uma verdade, vai deixar de sê-lo porque teremos de dizer: onde não há pão todos berram e todos têm razão. Razão de berrarem e razão de se revoltarem.

O governo tem de tomar medidas muito drásticas e muito ríspidas para pôr cobro a tal exploração. Se não por objectivos políticos, ao menos por objectivos humanistas. Se a carestia vem da matéria prima, a farinha, ou se há ou não há acordo entre os produtores e ou distribuidores do sector, é problema do governo e não nosso; o que nós queremos é ter pão acessível às bolsas magras para que os nossos filhos possam comer, ao menos, um pão, ainda que seco, em cada refeição. Se não houver uma importação mais barata de farinha – dizem-nos que o Canadá a tem mais barata e de excelente qualidade -, o governo terá de estabelecer um preço sobre o pão.

Assim, tal como se anuncia, é que não pode ser. Num país onde o pão atinge tal preço é um país onde há crianças com fome. Portugal tem que ter o seu próprio cereal para não estar sujeito às contingências estrangeiras. Chegou a hora de pensarmos na população nacional como meio de sobrevivência. Não é fantasia. É a verdade. Tem de dizer aos mandantes de Bruxelas que o país não está em condições económicas e sociais de suportar tal violência de preços. Os portugueses não podem pagar o pão como os outros pagam porque eles ganham muito mais do que nós. O pão é para a grande maioria dos portugueses “pãozinho do Senhor”.




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