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A tirania não compensa, não compensa não

Ladies and gentlmen, we’ve got him». Esta a expressão que irá fazer história: «Senhoras e Senhores, apanhámo-lo». A captura do fugitivo mais procurado desde há meses, por todos os cantos do Iraque, acontece no passado dia 14 de Dezembro.

N/D
9 Jan 2004

Na verdade, trata-se de um tirano que durante anos oprimiu, humilhou, assassinou centenas de milhares de súbditos, soterrando-os, pela calada da noite, e, entre eles, amigos e parentes; um déspota que atraiu com falinhas mansas ao seio da sua família e da sua pátria dois genros para friamente assassinar, deixando as suas próprias filhas viúvas e nos braços delas seus filhos e netos do assassino; que desencadeou uma guerra mortífera contra o Irão; o responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas causadas por duas guerras injustas e desastrosas, seguidas, a segunda contra o Kuwait, de uma selvagem repressão.

«O novo Saladino que, montado a cavalo e de espingarda em riste, encabeçava os exércitos que libertariam Jerusalém, esse megalómano feroz e implacável, amado como Estaline por seus fiéis e odiado em silêncio por 80 por cento dos seus desditosos súbditos, se havia deixado caçar como um rato na sua ratoeira». O novo Saladino é mesmo Saddam Hussein, e quem o afirma é o escritor Juan Goytisolo, num esclarecido texto publicado em El País, a 24 de Dezembro passado.

Mais diz: «Imerso como estou na leitura de Las mil y una noches, um mundo onde suas personagens se tropeçam casualmente com alguma pedra e descobrem lá ao fundo um alçapão sob o qual uma escada leva em direcção a um dos palácios encantados da época de Harum al-Rasid – com tectos dourados, chão de mármore valiosíssimo, tabiques com inscrições em lápis-lazúli, tectos cobertos de seda polícroma, além de profusão de pérolas e outras preciosidades -, estava convencido eu que o sátrapa em fuga se ocultava num deles, construído, esse sim, sem a grandiloquência comum aos actuais tiranos e reis árabes. Por isso a minha surpresa foi grande ao contemplar no passado dia 14 em todos os programas televisivos que o alçapão e a escada conduziam a uma choça imunda em que um personagem barbudo, caracterizado de homem das cavernas, afirmava ser Saddam Hussein.

A minha incredulidade aumentou quando é anunciado que se havia rendido sem disparar um tiro, embora estivesse armado com um revolver na mão. As imagens tão fortes de uma humilhante inspecção médica, seu aspecto hirsuto e desconcertado […], tinha na verdade um efeito saudável e revulsivo: o de desmistificar para sempre esses tiranos, pais de futuros sátrapas, cuja retórica patrioteira encobre a monstruosidade dos seus actos e o clamor das vítimas […]. Desembaraçados desse pai brutal, os iraquianos podem hoje decidir finalmente o seu destino e tratar de pôr de pé o seu país, devastado por três guerras, doze anos de cruéis sanções e ocupado hoje por exércitos estrangeiros…».

Quando os captores, desiludidos por não o terem encontrado, se preparavam para deixar cair uma bomba na toca imunda, eis que vislumbram umas mãos acenando como que a pedir misericórdia, e uma voz rouca a dizer: «Eu sou Saddam Hussein, Presidente do Iraque, e quero negociar». E negociou, porque a bomba foi logo desactivada. Antes vivo que morto. Perguntado se queria ver o seu povo, respondeu: não é povo é populaça e, perguntado ainda o que dizia dos cadáveres empilhados sob o solo e agora desenterrados, respondeu sem hesitação: «Todos ladrões».

Quase todos os dias corre sangue no Iraque. De soldados da coligação e de iraquianos esperançados, na sua maioria, num país livre da tirania. As Nações Unidas devem fazer tudo para que os iraquianos, livres agora da humilhante opressão, reconstruam o seu país em democracia. Seria um bom exemplo para os países dessa conturbada região, que tanto ódio vomitam contra o Ocidente. Os tiranos e reis árabes já começaram a pôr as barbas de molho. Veja-se a Líbia a dar sinais de ocidentalização. O Irão começa a colaborar, já com eleições legislativas à vista. Só não há esperanças, por agora, no conflito que envolve Israel e a Palestina. Uma guerra civil no Iraque, envolvendo curdos, sunitas e xiitas, seria um descrédito para americanos e ingleses e para quem apoiou o desmantelamento de um poder opressivo. E para gáudio dessa mixórdia ideológica que contesta a intervenção por motivos que nada têm a ver com o interesse dos iraquianos que mais uma vez ficariam sem futuro à vista.

Sei que essa oposição à intervenção armada foi e continua a ser grande. Direitas e esquerdas e extrema esquerda afinam pelo mesmo diapasão. O pretexto foi o não ter sido autorizada a intervenção pelo Conselho de Segurança. Se tivessem aparecido armas de destruição maciça, teriam descoberto outros argumentos para continuar a contestar. São tradicionalmente contra a América – o seu inimigo comum. Não lhes basta o desmantelamento da ditadura e a esperança na democratização de toda essa zona, onde a regra geral é a violação dos direitos humanos. A “nova esquerda”, ao contrário da velha, reúne hoje muita gente que estava antes de costas voltadas uns para os outros, desde comunistas ortodoxos a renovadores, pacifistas a conservadores e grande parte de socialistas e esquerdistas de várias matizes.

Antes, a velha esquerda era o amor à União Soviética, agora é a aversão aos Estados Unidos. Que estranheza ver na praça pública juntinhos Mário Soares e Freitas do Amaral, Francisco Louçã e Carlos Carvalhas, todos unidos contra a hegemonia dos Estados Unidos. Que leiam todos a história dessa Nova Inglaterra e talvez fiquem a saber quanto, não só a Europa, mas até o mundo, deve a essa grande América. A primeira a apresentar ao mundo uma constituição republicana que iria influenciar a Constituição francesa da sua pós-revolução. Até a França e Alemanha, de bicos de pés agora, parecem ter esquecido o seu passado na II Guerra Mundial, apesar de lhe deverem a recuperação da sua independência. Assomos de um novo-riquismo!




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