Fotografia:
Em Soham, de bicicleta

1 – A minha passagem por Cambridge. Mal sonham os senhores Leitores, que o pacato autor destas linhas já viveu e estudou em Cambridge, na Inglaterra. No ano de 76 e pelo curto espaço de pouco mais de um mês, é certo. Mas a verdade é que eu posso dizer que já estudei na cidade da célebre universidade que serviu de “alma mater” a tantos grandes heróis da Ciência, dos quais aqui recordo dois, nada menos que Newton e Darwin.

N/D
8 Jan 2004

É certo que em Cambridge os meus estudos não foram universitários (esses, fi-los em Lisboa e Coimbra); foram apenas estudos de avançado aperfeiçoamento do idioma dos ingleses, a língua em que falaram e escreveram Shakespeare, Mark Twain, Henry Morton Stanley, a rainha Vitória ou D. H. Lawrence.

2 – “Anni terribili”. Decorria o interminável processo revolucionário do 25 de Abril e eu entrara pouco antes para a Fac. de Direito da Univ. de Lisboa. Então como hoje, sempre fui uma pessoa organizada e empenhada na manutenção da Ordem, desde que ela me parecesse minimamente justa. E assim escolhera eu, após muitas hesitações, o estudo das Leis e me começava a preparar para no futuro ser um profissional do fôro, provavelmente um juiz ou um delegado do Ministério Público. Para trás ficavam as Letras, em relação às quais eu sentia uma vocação muito marcada, já desde a mais tenra adolescência. Uma opção que até certo ponto se revelaria errada, pois o decurso da vida e a vontade de Deus reencaminharam-me de vez para as Letras, após ter sido um contrariado advogado por meia-dúzia de anos.

Mas que justas leis iria então eu, pois, estudar e aplicar? Naqueles intermináveis 5 ou 6 anos de ocupação, desmandos, descolonizações, hipocrisias, invejas à solta, inversão de valores, intoxicações televisivas de propaganda política de extrema-esquerda, de apologia da inimizade entre classes sociais, de destruição de símbolos nacionais, que vontade teria eu de ser um “manga-de-alpaca” da nova Ordem, em tantos pontos antitética daquela em que eu fôra educado?

A nova Ordem portuguesa, em que eu esforçadamente acreditara até ao 28 de Setembro de 74 (e à abdicação de Spínola) repugnava-me agora; e como tantos, admiti mesmo a hipótese de emigrar. E de obviamente, mudar de curso, de estudar algo no campo das Letras ou da Antropologia, mas no estrangeiro. A Áustria e a Inglaterra eram os países que mais me apelavam. Acabei por preferir a Inglaterra, sobretudo porque falava inglês um pouco melhor do que alemão. Gostava de ter ido para a minha querida cidade de Londres (se tivesse ido, talvez ainda hoje lá estivesse…); mas o meu Pai enviou-me para a muito mais pacata Cambridge, onde já fôra investigadora molecular a profª. Dirce Milheiro Caldas, esposa do seu grande amigo, o saudoso matemático A. Andrade Guimarães.

3 – Recordações de Cambridge. Cambridge fica na região inglesa de East Anglia, uma vastíssima planície rasa e com poucos arvoredos. Morei lá, salvo erro em Fevereiro e Março de 76. O frio era intenso, sobretudo à noite. Dias de ne-voeiro alternaram com gloriosos, mas curtos, dias de sol de Inverno. Eu tinha um quarto arrendado na espaçosa vivenda de um jovem pedreiro, homem de barbas que todos os dias ia trabalhar para a vizinha Peterborough e deixava em casa a mulher e uma criança de 4 anos, cujo inglês infantil me era bastante difícil compreender e com a qual nunca me senti à vontade. A culinária era da usual “pobreza anglicana”, à base de leite, chá, batatas e ovos cozidos, salsichas, toucinho, sumo de laranja, feijões, cenouras, maçãs, compotas e tortas (a cozinha é um dos “calcanhares de Aquiles” daqueles insulares…).

A escola de línguas ficava aí a uns 2 ou 3 kms, que eu fazia de início a pé, mas depois, numa das muitas bicicletas que eram alugadas a estudantes. O trânsito era muito disciplinado e os transeuntes pareciam sempre muito compenetrados nos seus afazeres, relativamente indiferentes uns aos outros.

Fisicamente integrado, sentia-me à vontade sobretudo a explorar as ruelas do centro. Confesso que os diversos “colleges”, só os vi de fora, absorto com os meus estudos, saudades e preocupações de ordem política.

Lembro-me de uma professora que era do rude norte de Inglaterra e se fartava de dizer que os ingleses do sul (mais germânicos) eram mais moles e mais refinados que os dos seus lados (e isto é verdade…). Lembro-me de outro professor, um grosso sexagenário de barba castanha arruivada, baixote, eloquentíssimo, sapiente, que costumava sempre lavar a cara e as barbas depois do almoço e que por qualquer razão (provavelmente por eu ser “espanhol”) simpatizara bastante comigo.

4 – Os colegas estrangeiros. Havia um jovem suíço-italiano que morava em Zurique e que não era grande aluno. Havia uma espanhola bastante desenxabida e em relação à qual eu polidamente lá encontrava desculpas para não ter de acompanhar na rua. E havia uma exótica iraniana que me andava a “fazer o jogo”, sempre muito simpática e solícita. Iranianas, georgianas (grúzias) e arménias, sempre as houve muito bonitas; mas, por azar, esta não tinha nada de extraordinário, a não ser o facto de ter os braços cobertos com aquela “penugem” tão característica da pureza da sua nobre raça antiquíssima irano-caucasiana. A moça estimava-me muitíssimo e a minha ulterior partida súbita para Portugal deve-a ter deixado desolada. Esta rapariga dizia pertencer à velha minoria religiosa persa dos mazdeístas (religião do famoso mago Zaratustra). Não era pois muçulmana. Era antes uma crente na eterna luta entre o Bem e o Mal, uma adoradora da luz e do fogo, uma crente no Dualismo Teológico, com supremacia, é claro, do deus do Bem, Ahura Mazda. Não sei bem se era exilada política, mas dava a entender que os pais eram gente de dinheiro.

5 – Soham e o “Devil’s Dyke. Um dos colegas com que me dei melhor foi um jovem belga de língua francesa, com o qual me lembro de ter feito um passeio de bicicleta de mais de 30 kms. Nada menos que ao famoso Devil’s Dyke, que é uma vala com o comprimento de 8 kms, alinhada com um muro de terra de origem anterior ao séc. VII d.C. e de significado não totalmente desvendado (fronteira, defesa?). O romantismo das minhas leituras sobre a Britania céltica e pré-romana, romana e saxónica tornava aquela “peregrinação” incontornável. Pelas mesmas razões de adolescente com que alguns anos antes pernoitara em sacos-cama no alto da citânia de Sanfins (S. Tirso) com 2 amigos, um deles sobrinho-neto do padre Américo, trocando o relativo conforto do nosso alojamento de Verão no mosteiro de Singeverga pela aventura de dormir entre os espíritos de gente tão antiga, certamente alguns deles meus antepassados.

E lembrei-me de recordar hoje aqui, aquela minha “peregrinação” ao mais famoso local arqueológico do Cambridgeshire porque, mesmo ao lado, fica a pequena vila de Soham, palco dos recentes assassinatos das suas crianças pelo vigilante da escola, recentemente condenado a prisão perpétua.

O mundo é realmente pequeno. E Deus está em toda a parte. Embora às vezes não pareça…




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