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Meu Caro Leitor:

Após esta trégua, pensada e sentida, de três semanas para dar voz ao silêncio e ao coração, cá estamos de novo em diálogo franco e aberto. Diálogo que ainda é a melhor forma de aproximar, sentir as pessoas e que tão pouco faz parte da nossa cultura de machos latinos, mais dados ao monólogo e à estúrdia.

N/D
7 Jan 2004

Diálogo que, talvez, nem te lembres já ou não saibas, vai para dezanove anos é a ponte que aqui, semanalmente, nos liga e abre asas ao bate-papo e à tolerância, na certeza de que água mole em pedra dura… Porque os homens, que têm obrigação de servir, tolerar e dialogar, muito afastados andam do culto de tais valores só eles responsáveis pela solidez e transparência das instituições e abertura das mentalidades.
Todavia, eu me interrogo, frequentemente, por que é que o elogio, o louvor hão-de ter, na nossa sociedade, mais aceitação pública que a crítica, a achega, quando certos Leitores, nas roas, nos cafés, ao telefone me dizem tu bates forte, tu não perdoas, qualquer dia tramas-te… E eu entendo, porque uma das qualidades que nos vai faltando, se é que alguma vez a possuímos, é a da frontalidade e da verdade. Custe o que custar, doa a quem doer!

Como, igualmente, entendo que é mais fácil e útil fingir, calar, dar a volta, dizer amém. E, cobardemente, tentar rondar o poder, servi-lo e a quem o serve. Mas, esta idiossincrasia muito lusitana, mormente quando o poder se compra a votos, não aproveita a todos, não faz
crescer, quer por dentro, quer por fora.

E, sobretudo, promovendo a incompetência, o clientelismo, o laxismo e a hipocrisia, prejudica o normal funcionamento das instituições.

Além do mais, mesmo em democracia, eu sei e sinto que é mais difícil ser livre do que puxar a carroça! E que esta forma de liberdade, que tem imensos custos, não é apanágio de camaleões, parasitas, moluscos e lambe-botas do poder!

Pois é, caro Leitor, onde há uma raposa, um queijo e um lobo existe sempre o recurso à intriga, à fanfarronice e à perfídia. E isto desde que o mundo é mundo, que é como quem diz, desde que os homens desceram dos galhos e deixaram de guinchar. Obviamente, quanto mais o progresso, a todos os níveis, avança e cria novos e mais alarmantes instrumentos de domínio e globalização.

Tu sabes tão bem quanto eu que mesmo a democracia, como o pior dos sistemas políticos, exceptuando todos os outros, tem sido aproveitada para as mais sofisticadas e variadas formas de exploração, humilhação, injustiça e exclusão. Porque ela limita-se, quase sempre, ao rotineiro e simples exercício de votar, à pura utopia da representatividade e deliberação: eu voto, eu escolho, logo será como eu penso e quero!

Ora, enquanto a democracia não for mais participativa, vigiada e dinamizada por quem escolhe e elege, os homens do poder continuam a dar-lhe o sentido e rumo que mais lhes convém e aos partidos políticos que representam. E, daqui, ao puxar da carroça vai um passo, porque a liberdade e a igualdade no acesso aos bens essenciais (saúde, educação, justiça, habitação, paz e pão) não passam de miragens! Miragens que as instituições e homens que as servem e delas se servem justificam sempre com défices de toda a ordem: económico, democrático, cultural!

Por isso, meu caro, é que, semanalmente, marcamos encontro, aqui, dando vez e voz a quem as não tem, denunciando, alertando, incomodando, e sempre na certeza de que cada vez mais o que faz falta é avisar a malta! Para que, havendo menos puxadores de carroça, mais homens livres haja!
Com um abraço amigo e até de hoje a oito!




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