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Desertificação: o pecado político

Há três décadas que ando a ouvir os lamentos da desertificação do interior do País.Há três décadas que ando a assistir à partida de portugueses para o estrangeiro.
Há três décadas que ando a escutar os discursos dos políticos sobre o fenómeno da emigração e sobre o fenómeno da desertificação.

N/D
6 Jan 2004

E isto é como um peixe de rabo na boca: Há desertificação porque há emigração; há emigração porque não há condições para não haver desertificação. É o jogo do gato e do rato.

Num país (sempre estudei nos livros e mo foram dizendo pela vida fora) é o poder político que deve mandar na organização, na estruturação e no encaminhamento do desenvolvimento. E quando o poder económico manda é mau sinal para o equilíbrio das pessoas, das regiões e do próprio país.

Volvidos muitos anos, e depois de ter vivido e discutido tantas coisas neste sector da vida económica e política, vou chegando à conclusão de que a desertificação do país, o desequilíbrio das suas regiões e o subdesenvolvimento do interior, é uma consequência pura e simples da incúria e da falta de capacidade política que foi cedendo, pouco a pouco à imposição do ritmo económico. O projecto a nível político para o interior, tem sido de comiseração e não de justiça; tem sido de cruzar nos braços e não de acção, tem sido de cobardia e não de frontalidade.

Nos tempos das minhas utopias decidi escrever que o Banco para onde os emigrantes deveriam enviar as suas generosas economias, devia estar sediado na terra mais humilde e pobre do interior.

As economias deveriam ser para aqui enviadas e investidas naquelas zonas, donde a emigração tinha partido. As economias não chegam? Ouvi dizer muitas vezes e vi-o escrito em muitos jornais que as econo-mias que os emigrantes enviavam para o país é que equilibravam a balança de pagamentos!

Alguém leu o que escrevi? Algum político deixou de dormir, serena e calmamente, a pensar nisto?

Algum economista ou empresário tomou nota no caderno de apontamentos? Algum Banco teve interesse real numa iniciativa desta natureza? Bancos centrais abriram sucursais no interior, mas foi só para sugar o dinheiro aos emigrantes que vinham às suas terras. Entretanto, estas economias não eram ali investidas, mas onde os Bancos Centrais projectavam, em ligação com os grandes Grupos Económicos.

O Interior há muitas décadas que anda a desertificar-se. Há muitas décadas que ouço discursos políticos contra esta desertificação. Mas também há muitas décadas que vejo o Litoral erguer-se com o dinheiro dos emigrantes do interior; há muitas décadas que vejo o interior cada vez mais desertificado; há muitas décadas que vejo milhares de emigrantes a partirem dali para a Europa, para as Américas e para outras partes do mundo. E o contra-senso também está nisto: se a emigração aumentou, também a imigração tem aumentado; se a emigração/imigração tem aumentado, também o desemprego cresceu por todo o lado.

Não me digam que a culpa do interior estar como está, é dos portugueses que dali abalaram. O dinheiro que eles ganharam no estrangeiro e que enviaram para Portugal, correctamente orientado pela Banca pública e privada e devidamente enquadrado por estratégias e dinamização política, seria o suficiente para equilibrar o país, a memória dos emigrantes regressarem às suas zonas de origem e termos um território não a desenvolver-se a duas velocidades, mas mais justo e solidário.

O interior do país é uma injustiça política. Aquelas gentes teriam o direito de meter os Governos em Tribunal. Eles foram os grandes culpados da desertificação, do subdesenvolvimento, do abandono dessas terras pelas suas gentes. Eles foram os culpados de milhares de emigrantes não terem regressado às suas terras, de não terem ali investido, mas investido no estrangeiro, de reterem as economias no país de acolhimento e não continuar a enviá-las para os bancos portugueses.

E quem poderá culpá-los de tudo isto?

Quem poderá dizer-lhes que não foram e não são patriotas?

Quem poderá afirmar que não fizeram aquilo que lhes pareceu melhor para si e para os seus?

Faltou ao País uma estratégia política. Não uma estratégia de discurso (nisto fomos abundantes), mas uma estratégia de política real e prática que de modo eficaz, fizesse mudar o ciclo e o peso do desenvolvimento do país. E neste momento a política continua igual. Parece que as coisas estão a mudar? Mas não vêm que enquanto o interior dá 10 passos em frente, o litoral dá noventa? Para onde caminhamos ainda hoje? Não vêem que daqui a 10 anos, metade da população está encurralada em Lisboa e nos seus arredores, e é bombar-deada com milhentos problemas sociais, étnicos e culturais? Se a política quiser, ainda se podem inverter os cruzamentos e prosseguir num desenvolvimento definitivamente virado para o país real. É uma questão de vontade política. Ou ainda é o mundo económico, com dimensões marcadamente liberais, que continua a mandar e impor as suas regras de jogo? Onde está a economia solidária de que tanto se fala? A descentralização que agora por aí se apregoa?

De facto, a desertificação continua a ser o pecado político, que mantém em desequilíbrio o nosso País.




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