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As eternas crendices

Ainda há quem acredite em horóscopos, cartas, mapas astrais e outras coisas que tais. Esta crendice também se nota em muitos católicos que dizem adorar a Deus sobre todas as coisas, mas, no fundo, são clientela destas “espiritualidades”. Dizem-nos para não mexermos nestas coisas porque o povo é assim mesmo e assim gosta de ser, isto é, o povo é crente na crendice. Mas alguém tem que mexer nas águas quietas deste lago adormecido pela modorra dos tempos.

N/D
5 Jan 2004

Vem isto a propósito do seguinte: há um número cada vez maior de “profetas” que aparecem nas televisões, em todas sem excepção, deitando as cartas, fazendo profecias, atrevendo-se a dar conselhos quanto a saúde, negócios, política e amor, num desplante que começa a roçar não só o atrevimento mas a agressão de quem não tem estofo intelectual para aguentar tais manhas, patranhas e artimanhas. Já fomos mandados calar em casa de uma senhora que muito se presa e cuida, para que ela pudesse ouvir uma “profetiza” de televisão falar sobre o signo que era o mesmo que o seu. E pelo abanar da cabeça, em sinal de concordância com a sina, temos de convir que a das cartas do taró ( tarot em francês) sabia do seu ofício. E como esta minha amiga outras pessoas há, e naquela sala havia algumas, também muito finas e igualmente inteligentes, que procuram nos sinais das cartas a representação do seu futuro. Querem, isso percebe-se claro, perscrutar na incerteza do futuro. É a angústia do nevoeiro.
Não estamos nada longe dos tempos do santuário de Delfos, Séc. VIII a.C.) onde os oráculos, Apolo e outros, eram procurados por reis, cidadãos, ou simples gente do povo, para assuntos políticos, morais ou religiosos. Nesse tempo os cristãos acharam necessário destruir o templo como medida radical para acabar com tais práticas por as acharem contrárias à religião. Algumas vezes temos dito que o homem de hoje pouco ou nada evoluiu do homem das cavernas. Apenas a tecnologia fez dele um homem civilizado porque interiormente está no mesmo ponto de partida, negando, assim e desta maneira tão assustadoramente verdadeira, a evolução como teoria de desenvolvimento.

Quando as ciganas, pelas feiras e ajuntamentos pediam as mãos para lerem o destino, não estavam, afinal assim tão distantes das que hoje, muito compenetradas da sua ciência oculta, deitam as sortes diante das câmaras das televisões.

Mas isto poderíamos encará-las como mais um trabalhinho, porque mais vale pedir que roubar, mas a enorme adesão que chega através dos telefonemas, desde a senhora que pergunta se o marido vai continuar com a amante até àquela que quer saber se o negócio vai melhorar nos tempos que hão-de vir, não só se constituem como consumidoras de superstições, mas pior que isso, fazem uma onda de fundo; ao cativar muitas outras, criam a “fé da sina” julgando que nas cartas residem a verdade e a vida. E o mais curioso é que continuam a dizer-se católicas, apostólicas romanas e não vêem na cegueira da sua ingenuidade que estão a alimentar o ilusionismo da verdade e da vida.

Como poderemos destruir este novo templo de Apolo? Não acreditando nas crendices. E chega




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