Fotografia:
Casa Sacerdotal

Quem, como o signatário destas linhas, escreve continuadamente para vários jornais, tem forçosamente de, volta e meia, passar uma vista de olhos por todos os periódicos da região, à cata de notícias e informes que interessem aos seus articulados. Ora foi, precisamente, numa dessas rondas, que deparei com duas esquisitas crónicas sobre as Casas Sacerdotais, mandadas construir pelo Bispo de Viana e pelo Arcebispo de Braga, para lar e repouso dos sacerdotes idosos das respectivas dioceses.

N/D
4 Jan 2004

Li e fiquei espantado, pela requintada ironia com que foram elaboradas.
– No que à Casa Sacerdotal de Viana dizia respeito, a ironia andava à volta do refinado e exótico luxo (?) da ausência de escadas, em todo o edifício.

Perante tal desconchavo jornalístico, apetecia-me perguntar:

– Mas que culpa tem o Bispo e o respectivo ministério diocesano de terem experiência e saberem o que é subir e descer escadas a um velhinho alquebrado?

É que, só no dia de Páscoa, são centenas e centenas as escadas subidas e descidas pelos sacerdotes no compasso pascal e, no dia a dia de pastoreio profissional, quando visitam enfermos a contas com reumatismos senis, conhecem como ninguém os sacrifícios por eles feitos para subirem às suas habitações.

Por isso, quer o Bispo, quer os sacerdotes, ao eliminarem tudo quanto é escada, apenas tomaram uma atitude pedagógica e humana.

– Em relação à Casa Sacerdotal de Braga, um outro articulista considera-a um «hotel de cinco estrelas».

Podia o ilustre cronista ter reparado que, quando as aldeias não tinham luz nem água, não dispunham de estradas nem de meios de acesso, não gozavam de rádio nem de jornal, o clero foi a única classe que foi para o meio do povo e, aí, para além do múnus pastoral, procurou lutar pelo progresso material e cultural da paróquia.

Podia ter reparado que o sacerdote, para ser pároco de uma freguesia, prescinde de construir família que vive toda a vida sem a que possuía e, assim, não admira que, no fim da vida, apareça solitário e sem amparo.

Podia ter comentado os muitos lares de idosos, que só foram erguidos por o respectivo pároco ter prescindido de terreno do passal, (cujo usufruto legitimamente lhe pertencia); podia ter analisado o moroso trabalho da papelada oficial, os cansativos peditórios feitos e os preocupantes empréstimos contraídos, em que o pároco andou envolvido, para que a obra se realizasse a contento dos velhinhos da paróquia.

Depois, perante a análise feita, não lhes ficava nada mal dizer que quem assim trabalhou para os outros, também merece um pouco de atenção, no final da vida.

Assim não o entenderam, infelizmente, os cronistas!…

Evidentemente, que a Casa Sacerdotal de Braga vai ser uma obra prática, limpa e funcional, mas está muito longe do estatuto de «hotel de cinco estrelas».

Tanto assim, que será difícil aos cronistas explicar por que razão há sacerdotes que, no final da vida, ao calor e à fidalguia de tantas estrelas a brilhar no frontispício da Casa Sacerdotal, ainda prefiram o humilde aconchego do borralho caseiro.

Por isso, uma vez que o clero – pelo que dizem – açambarcou todo o calor das estrelas do céu, esperemos que tenha deixado um ou outro cometa, onde os referidos cronistas possam guardar as suas deletérias escrevinhações.




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