Fotografia:
Reflexões numa bicha de espera…

É o português um homem de contrastes. Gosta das leis rigorosas, que sejam cumpridas a cem por cento, embora no caso pessoal descubra mil estratagemas que o colocam como excepção. Insurge-se perante a injustiça, clama a plenos pulmões que assim a coisa não vai bem, embora se esqueça com frequência de que ele é o primeiro a lesá-la, quando foge à lei que o abrange, desde que não se note publicamente tal atropelo.

N/D
30 Dez 2003

Não é necessário uma incursão pelo mundo dos impostos para nos certificarmos de que o português e a lei são como amigos que vivem longe um do outro, de vez em quando se correspondem e geram profundos conflitos quando se aproximam e intimam.
Há outro campo muito significativo, que todos nós conhecemos de gingeira e que com serena contumácia furamos quando podemos. É o caso das bichas de espera nos estabelecimentos geridos pela saúde pública.

No país do fado, e apesar dos bons propósitos dos governantes, elas são como que uma epidemia incurável. Não é difícil aduzir razões e explicações mais ou menos plausíveis para as explicar, desde as da gente que não votou na maioria e denigre com tendencial vocação tudo o que se faz no sentido de melhorar a situação. Para alguma dela, as iniciativas, se partem da esfera de quem detém o poder na actualidade denotam, aprioristicamente, incompetência ou falta de sentido de oportunidade. E assim as condenam ao fracasso sem remissão possível. Os defensores, pelo contrário, continuarão a dizer que a situação recebida da antiga quase-maioria não podia ser mais desfavorável, pelo que é necessário esperar algum tempo até se chegar ao são. E vêem com olhos de esperança um futuro mais ou menos risonho, não sei exactamente para quando.

A bicha de espera faz parte da nossa desordem habitual. Numa poesia observava-se que o português foi um grande marinheiro/, sem talvez saber nadar … Estas estrofes reflectem algo do nosso carácter, que patenteia aos olhos de quem nos observa um personagem que se lança a fazer as coisas sem ter previamente pensado em todos os prós e os contras e nas eventualidades imprevistas. Denotam, porém, um espírito de iniciativa disposto a enfrentar o que não se acautela bem, na suposição de que topará, mais tarde ou mais cedo, com uma boia de salvação. “Depois, já se verá…” Esta atitude habitual dá cabo de qualquer organização. A lei deve regulamentar tudo duma forma precisa, apesar de ninguém a conhecer bem e a praticar a preceito. E quem duvida de que há sempre um modo que sugere ao espertalhão lusitano atalhos profíquos para o isentarem do seu rigor?

Um deles é que o português espera providencialmente a existência de um amigo que dê o jeitinho e desenrasque a situação. Decerto não quer – Deus me livre! – causar mal a ninguém. No entanto, como as coisas são como são – e nisto da saúde não se pode brincar -, já sabemos que as bichas de espera só me deixariam ser atendido daqui a não sei quanto tempo. Provavelmente, já eu teria partido desta para melhor. De maneira, que nem é tarde nem é cedo, telefonei à pessoa exacta. E não penses que é dos altos cargos… Isso pode tornar pior a emenda do que o soneto. Recordo que um dia pedi a um chefe máximo uma certidão. Pois tive de esperar duas horas por um seu subordinado, que fez questão de ma entregar pessoalmente para engraxar as botas ao chefe. Foi uma seca e serviu-me de lição!… O que é preciso é conhecer quem mete a ficha na hora certa para sermos atendidos… Foi o que sucedeu!… E não calculas a pena que me dão aqueles desgraçados que não têm estes conhecimentos… fartam-se de esperar, coitados!

Outros, com mais cabedais e menos iniciativa no improviso, recorrem à medicina privada, sobretudo se tiver freiras como enfermeiras, pois são mais carinhosas. Destes, alguns, ainda protestam, ao mesmo tempo que dão graças a Deus por poderem pagar as despesas, nada parcas… A quase totalidade resigna-se a esperar até que seja chamada, na convicção de que algum dia há-de ser… Quando? Eles é que sabem… E neste “eles” se inclui todo o nosso serviço público de saúde.

Soluções? Sejamos francos: muito poucos querem arriscar. O poder soberano apresenta cifras de melhoria e todos gostaríamos de acreditar nelas, porque o português tem bom coração e não suporta ver alguém sofrer. Mas, no seu caso – como já te disse, juro e repito, Deus me livre de querer prejudicar quem quer que seja! – o jeitinho surge meridianamente como a melhor solução… E assim não se vai longe, salvo se conseguir meter a tal cunhazinha no momento mais propício a quem nos pode valer… Mas só no meu caso pessoal…




Notícias relacionadas


Scroll Up