Fotografia:
Por uma “quase-obsessão” pelo emprego

O trabalho é a chave da questão social» – escreveu, preto no branco, o Papa João Paulo II, na Laborem Exercens. Repare-se: o trabalho. Não o mercado. Este é de natureza instrumental e válido na medida em que promove, ou ao menos não fere, a dignidade de cada pessoa. E o trabalho é a chave da questão social porque não só é um meio de sobrevivência, mas deve ser um meio de realização e de criação.

N/D
29 Dez 2003

O desemprego deveria estar, por isso, à cabeça das políticas públicas e muitos outros objectivos, certamente correctos e justos, deveriam ser avaliados pelo modo como contribuem para proporcionar ocupação e sobrevivência a quem dela carece. Bem como aqueles que, em cada momento, estão encarregados de formular e aplicar essas políticas.
Não é assim que estamos. Portugal conhece um dos mais rápidos crescimentos do desemprego da União Europeia, com uma taxa que não anda longe dos sete por cento e as perspectivas encaminham-se para um ainda maior agravamento desta chaga social. Bem nos podem vir dizer que desemprego e pobreza não estão necessariamente associados. Isso só amplia o drama, especialmente quando acabamos de saber que 20 por cento da população residente no nosso país é pobre ou está a caminho de o ser.

Mais do que os números impessoais e frios, são os dramas terríveis que o desemprego e a pobreza acobertam. Deles raramente falam os media, e quando o fazem, para apontar algum caso extremo, raramente nos ajudam a pensar nos mecanismos que produzem o desemprego ou nos capacitam para enfrentar essa situação.

As fábricas em dificuldades ou falência, os despedimentos a aumentar, a precariedade do trabalho a crescer, acarretam e significam feridas fundas na dignidade de centenas de milhares de pessoas e suas famílias.

A esta situação não se pode responder com soluções certamente interessantes mas utópicas para a grande maioria, como as de pretender fazer de cada desempregado um potencial empresário individual ou de micro-empresa.

Grande parte de quem poderia bater-se por encontrar saídas nunca esteve verdadeiramente sem trabalho nem imagina o que é acordar de manhã e não saber o que há-de fazer à vida. É claro que é preciso promover mais as competências de iniciativa e mudança. Mas muitos dos que se vêem de repente despejados à porta da dignidade humana sentem-se como que desapossados dos instrumentos básicos que hoje são precisos para compreender e enfrentar uma sociedade que mudou.

Eu gostava de ver a “quase-obsessão” pelo défice ser acompanhada por uma pelo menos igual “quase obsessão” pelo emprego. Aí talvez a gente até entendesse e aceitasse melhor a necessidade de restrições, para que todos nos dispuséssemos mais a partilhar o que temos e o que sonhamos.
Bom Ano Novo!




Notícias relacionadas


Scroll Up