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O aborto não é um problema legal

Foi Natal. Certamente em todas as casas as crianças foram as protagonistas. As atenções de todos para elas fizeram que os seus pequenos corações exultassem de imensa e sã alegria. Quem concebe um quadro natalício sem crianças? O ano que começa dentro de dias vai ser o ano da discussão requentada sobre o aborto. Digo requentada porque os argumentos científicos e religiosos que vão estar em debate, vão ser os mesmos do primeiro referendo. Ninguém convenceu ninguém, o que leva a concluir que tudo estará na mesma posição de há anos.

N/D
29 Dez 2003

O referendo sobre o aborto não foi conclusivo por ausência de maioria, dizem os que agora, à falta de melhor argumento, requerem a repetição; a nós parece-nos muito sinceramente que desta vez ainda vai ser mais diminuta a percentagem de votantes. É nossa convicção de que ninguém deve legislar sobre actos de consciência. E a suprema mania de legislar, ou pautar as atitudes por decreto, não deixa de ser uma intromissão abusiva, quando não uma profanação à dignidade individual. As Igrejas têm o dever de formar e enformar as consciências e depois disso deixar que as sementes dêem os resultados da sementeira.
O Estado, que é laico e não é senhor de ninguém, nada tem a ver com o caso. Logo, deixemos a cada um a posição de deixar que cada casal e não apenas a mulher, entenda-se, decida se tem consciência para matar ou, se, pelo contrário, sentem a ventura de serem pais. Não devemos discutir os tempos da morte abortiva.

A ciência, na sua arrogância de sempre, marca semanas, mas a consciência é intemporal, não anda ao sabor dos ponteiros dos sábios e muito menos quer saber se a vida começou hoje ou só daqui a semanas. Algo diz a nós todos que o fermento já é pão e que a farinha sem esse gérmen não passa duma pasta que não serve para alimento.

Custa-nos sinceramente o discurso apaixonado que as partes sustentam quanto à questão do aborto. Esta coisa terrível que é uma mulher, por sua livre vontade, matar um ser que vive dentro da sua barriga, provoca nas consciências mais sensíveis uma angústia do tamanho da repulsa. Mas admitimos que haja gente que não seja assim, isto é, que não sinta assim, para quem matar um filho na sua barriga seja um acto tão normal como uma unha encravada.

Um assassino dizia há tempos que matar, para ele, era um acto natural e quando se lhe perguntou se não reparava na cara das suas vítimas ele afirmou que as vítimas não tinham cara. Sabemos bem que as crianças que morrem de aborto não têm cara, são seres em botões de rosa e, talvez por isso, as matadoras destas crianças, porque lhes não vêem as carinhas inocentes e indefesas, possam sublimar os seus actos e até justificá-los com as condições económicas e sociais. Argumento débil porque as ricas também abortam. Mas se não têm outra consciência para sentirem, a culpa será possivelmente, e em grande parte, de quem as não soube formar. E aqui chamo a atenção para todas as confissões que defendem a vida como bem supremo, todas e sem excepção, para lhes dizer que se há gente que aborta com facilidade é porque a doutrinação não soube preparar terreno para frutificar a vida. Este é o campo de batalha onde se deve lutar e não o legal que não deve ter nada com a questão. Para reflexão: como teria sido o Natal que passou, sem as crianças?




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