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E chegamos ao Natal…

O tempo, esse sempre surpreendente personagem que é lento como a dor e fugaz como a felicidade de que somos capazes neste mundo, parece que, de vez em quando, nos faz parar e pasmar perante certas datas que o seu calendário regulador nos apresenta.

N/D
24 Dez 2003

O Natal é uma delas. Simples e complexo, o Natal não cabe nos quadros mentais de quem não entende que uma criança inerme e indefesa, totalmente entregue ao cuidado de seus pais, deitado sobre uma manjedoira dum estábulo anódino, pode ser simultaneamente homem e Deus. Homem perfeito no seu estado de completa necessidade dos outros para sobreviver, porque não se trata dum bebé a fingir, mas dum recém-nascido real, semelhante a tantos outros e a nós mesmos quando viemos ao mundo. E Deus autêntico que traz, através do homem que já é e vai ser, uma mensagem de paz e de amor como nunca foi vista nem vivida na terra.
E, no entanto, no silêncio e no grotesco dessa maternidade imprópria e inadequada para um ser humano nascer, Ele aí está, sob o sorriso benévolo de sua mãe e de seu pai, que a breve trecho se vêem visitados por alguns pastores pobres e humildes das imediações, pois acabavam de ser avisados por um mensageiro celeste do facto insólito do Messias já se encontrar neste mundo, como fora prometido.

Contudo, ao contrário do que seria de esperar, não nascera no palácio imperial de Roma.

Encontrava-se, ali perto, sobre uma manjedoira, numa das muitas grutas que eles conheciam tão bem e tantas vezes haviam visitado com os seus rebanhos. Gente lhana, não se atrapalha. E a breve trecho se põe a caminho, magicando no trajecto o que lhe poderiam dar como presente, já que o nascimento dum novo ser, para quem ama a vida e acredita no futuro, nunca é perspectivado como uma desgraça, que mais vale evitar enquanto é tempo. Não diz o povo, com sábia razão e confiança, que “um filho traz sempre um pão debaixo do braço”…?

E o espectáculo com que deparam não os desilude. Pelo contrário, torna-os ra-diantes. O Messias prometido não é um personagem longínquo, esfíngico, inacessível, hierático: é um bebé como todos os bebés, é um menino desprovido de meios materiais que, como todos os meninos, precisa de seus pais para sobreviver. Ao fim e ao cabo, ele é como um deles. Também na riqueza e na forma de se apresentar. Por isso, mais precisa dos seus presentes, na simplicidade de quem dá o que pode, sempre com gosto, alegria e generosidade.

O que vêem, satisfá-los. Voltam contentes para os lugares dos seus redis. É que a alegria tem muito a ver com a simplicidade e a humildade. Regressam mais satisfeitos, porque puderam ajudar esse menino que é o Messias; se se ajoelharam junto da manjedoira, não foi por esta aterrar com a sua majestade e impressionar pelo seu poder.

Cativou-os a singeleza extrema de tudo o que viram. Passaram a compreender melhor o cântico do coro angélico, ao anunciar que Ele seria bem acolhido por todos os homens de boa vontade. E, na realidade, não será ela necessária para descobrir no meio das palhinhas incipientes, nesse recém-nascido que não sabe falar, o grande Rei que há-de estabelecer um reinado infindável, para todos os povos e para todos os tempos?

O Natal é assim de simples. Mas torna-se complexo talvez por nós sermos mais complexos do que simples. Não estaremos a perder e a embaralhar, com sibilina complacência, o sentido genuíno desta data? Metamos a mão na consciência e perguntemo-nos: o que andamos a celebrar no Natal? Entre tantas prendas, cartões, reuniões familiares, festas opíparas em restaurantes ou hotéis e solidariedades laicizadas, não nos esquecemos de que o Natal é, pura e simplesmente, o aniversário de Jesus, o Messias prometido por Deus, desde os primórdios da humanidade?




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