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É tempo de Natal… de ser outro…

Nesta quadra natalícia “refontaliza-se” o homem nos sinais de Invisível, que se escondem numa série de fenómenos exteriores, que nos levam, por vezes, a esquecer o essencial. Somos convidados a ir ao mais intímo das coisas, numa perspectiva quase escondida, em que tocamos o mais inefável de cada um de nós, e voltamos à infância.Todo o homem é desejo, coração e inteligência, que todos os computadores por mais perfeitos, não podem satisfazer. Por isso Gabriel Marcel já dizia que “sem o mistério, a vida seria irrespirável”.

N/D
23 Dez 2003

Este tempo de Natal é então um apelo a algo de misterioso. Não temos nós ouvido falar tanto de tragédia, de amargura e mesmo de dor? Que nos diz a Luz de Belém?
Chegou o momento de testemunhar o que é límpido, alegre e radioso da nossa Fé. Mesmo nas formas de neo-paganismo, de que se encobre o Natal, para muitos há um apelo inconsciente para algo de ordem espiritual, de mistério e de insondável.Compete à Igreja e a cada um dos seus agentes revelá-lo não apenas através de sinais cultuais ou rituais, mas ler nos culturais, que se expressam e espelham em gestos, vozes, apelos de silêncio e de barulho, fora dos nossos parâmetros e dos que o mundo de hoje nos apresenta: “É Natal!! Tempo de ser bom, de ser Criança!…, de ter espírito de Bem- aventurança!”

” Bem-aventurados os pobres em espírito, os doces, os pacíficos… os puros!..” – e todos anseiam por este mundo feliz, de mostrá-lo como Paraíso edénico perdido, prostergado, ou esquecido. É que o mundo, em que vivemos submergidos, é o contrário de tudo isso: do sucesso económico, da riqueza, do êxito, da força, dos sensuais… É tudo isto que o mediático nos propõe: o egoísmo, a violência, o domínio. Isto vem da publicidade. O nosso mundo espiritual é totalmente o contrário.

Como compreendê-lo nas crises, onde parece que Deus se escondeu? Sem complexo teremos de afirmar o ideal das bem-aventuranças. Isto não é apanágio de padres, monges e religiosas, mas de todos os cristãos. Assistimos à noese do âmago de uma crise profunda, quer cultural, quer espiritual… Em vez de aparências, o homem precisa de pontos de apoio, de focos irradiadores de luz, apesar das experiências trágicas do sofrimento, se não seremos seres desnaturados, morcegos da noite à procura de luz. Mas não poderemos ficar numa afirmação teórica, mesmo na escuridão, com velas a extinguir-se…

Como diz o Papa “O mistério não se pode viver senão numa forma existencial; o encontro multiforme do ateismo, da não-crenca e da indiferença religiosa, exige a existência de crentes de convicções radicais, homens que vivam uma experiencia cristã profunda, ou de formação muito sólida de vida não separada do testemunho evangélico da fé”.

E Saint Exupery pergunta mesmo: Que sabemos nós das condições desconhecidas que nos fertilizam? Onde existe a verdade do Homem? Esta não é algo que se demonstre. Se nesse terreno e não noutro, os laranjais se desenvolvem e aprofundam as suas sólidas raízes e se carregam de frutos, aí está a verdade dos laranjais. Se esta religião e esta cultura, se esta escala de valores, se esta forma de actividade e não outras favorecem no homem esta plenitude, e libertam em si o grande “senhor” que se ignorava, é que esta escala de valores, esta cultura, esta forma de actividade são a verdade do homem. Qual a lógica? Que se desdobre para dar conta da vida?

Assim uns escolheram o deserto, como outros o mar, a frente, em linha de combate, a política ou outros até o convento. Mas o mais admirável em cada um é o terreno que os fundou. Em cada um se encontra um germe da própria história de infância que explica o segredo da sua própria grandeza ou da sua própria destruição. Por falta de oportunidades novas, ou de terreno favorável, por falta de uma religião exigente, muitos se deixaram adormecer sem ter acreditado no valor da sua própria grandeza. Assim desapareceram sem o mostrar. Outros não o querem reconhecer… como outros se deixaram embalar ou “embalsamar” no segredo de quimeras ilusórias. Não serão estas as meias verdades e os encantos efémeros da maior parte? Talvez o Natal seja ocasião para outros voos mais sublimes…

Por isso o Natal faz-nos ver o Cristianismo puro e o terreno foi esta Europa que o desenvolveu, mas hoje está anémico por culpa de quem? Nao estaremos a desperdiçar mais esta oportunidade aceitando mesmo estruturas sociais injustas e de degradação moral?




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