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«Et in terra pax hominibus»

Miguel Sousa Tavares escreveu na sua última coluna, no Público, o seguinte: “É lícito duvidar hoje se é o terrorismo que gera a resposta errática e condenada ao fracasso dos americanos, ou se é essa resposta que potencia o terrorismo. Seja qual for o caso só um imbecil ou um ignorante optimista é que pode imaginar que a captura de Saddam ajuda a resolver os problemas no Iraque ou a abalar a disseminação e o incremento do terrorismo”.

N/D
22 Dez 2003

A afirmação merece comentário e desenvolvimentos. Não partilho a disjuntiva, o “ou” que contrapõe o terrorismo e a resposta dos Estados Unidos da América e seus aliados. Há ali, implícita, a ideia de que um e outro pólo se equivalem e que é indiferente tratar-se de quem ataca (e de que modo o faz) e de quem se defende (e, igualmente, de que modo o faz). Suscitam-me também reservas as certezas de Sousa Tavares quanto às consequências da detenção de Saddam Hussein, se bem que ou me engano muito ou este acontecimento ainda está longe de revelar todo o seu significado e mistério.
Há, porém, na perspectiva do autor uma questão que merece ser considerada e desenvolvida, por se ter tornado questão vital nas relações internacionais. À cegueira do terrorismo escapa-lhe qualquer dimensão do direito e da moral. E por isso assistimos, num ritmo que se acelera na proporção em que se mediatiza, ao espectáculo do horror e da destruição.

Mas se a resposta que importa ser-lhe dada descuida o direito e a moral inevitavelmente resvala para o descrédito e gera a revolta. Temos assistido a esse espectáculo indecoroso e abjecto da prisão da base de Guantanamo. Todos reparámos que quando o exército de Saddam utilizou os soldados norte-americanos em situações humilhantes com o fito de minar o moral dos cidadãos norte-americanos, o governo de Bush fez elevar um coro de protestos, invocando os direitos dos prisioneiros de guerra consignados na convenção de Genebra. Ora, uma vez capturado Saddam, foi ver como esses direitos foram postos de lado e se esqueceu que a humilhação de uma pessoa, por mais vil que tenha sido, só inferioriza quem a pratica. E, no caso em presença, corre o risco de acicatar ódios de quem se sente vexado no vexame de um ex-líder.

Este “olho por olho” pode servir para satisfazer clientelas políticas, mas traduz a manipulação dos instintos mais primários, produzindo um caldo cultural cujo desfecho é, em última análise, o chauvinismo, o cinismo e a guerra.

Será, assim, para os cínicos, um non sense cantar o “Gloria in excelsis Deo et in Terra Pax ominibus bonae voluntatis”. O cântico pode ser, porém, a afirmação da vontade e do sonho de uma Terra outra, por parte de quem não se resigna a caminhar na direcção da tragédia.




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