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É uma indecência

Continuamos a dizer, que não a fazer, que as crianças não devem ser empregues como mão de obra infantil. De vez em quando os Direitos da criança encrespam as consciências e todos juntos fazemos juras e propósitos de emenda.

N/D
22 Dez 2003

Depois, como água de fundo de poço, tudo se aquieta na mesma indiferença. Ultimamente e uma vez mais se diz que desta vez é que vai ser e é que a fiscalização vai mesmo actuar. As crianças que cosem sapatos em casa, que cosem sapatos nas oficinas ou carregam cimento na construção civil são o alvo preferido dessa inspecção. Muito bem. Mas há outras crianças que suportam os trabalhos enormes e complexos de serem actores de telenovelas, de cinema, de circo e até, se quisermos levar as coisas ao extremismo na prática da ginástica.
Dizem-nos que tudo isto não é trabalho, que as crianças entrevistadas até dizem adorar, mas uma coisa é certa, prazer de criança é que não é certamente. O tempo de brincar, de conviver com os outros da sua idade, estão ocupados com os ensinos, com as repetições sucessivas até à exaustão ou ao tédio, o sono de repouso é sempre curto e nunca tão reparador como o sono normal de qualquer outra criança. E outro dado inquestionável é que as crianças das telenovelas e ou do cinema também não estão lá por lazer, estão lá porque são fonte de rendimento das famílias que o têm.

Olhando para um filme estrangeiro, com especial relevo para os filmes ou séries americanas, ficamo-nos a rir e a pensar, como será possível retirar daquela tamanha indústria o lucro do desempenho infantil? Olhando mais caseiramente, isto é, para as nossas telenovelas portuguesas, quantos são os pequenos actores principais, secundários ou meros figurantes que entram nelas?

Mais recentemente parece ter surgido uma outra opção: estabelecer quotas de participação de crianças, isto é, não dar emprego infantil a tantos actores pequenos. Mas em que ficamos, é ou não proibido o trabalho infantil, independentemente do número e da qualidade do trabalho? É que se não é assim, se começa a avaliar-se os casos casuisticamente, que o mesmo é dizer, que uns são mais iguais que outros; por favor, não mexam na coisa porque quanto mais lhe mexem, mais ela cheira mal. Deixemo-nos de hipocrisias e tenhamos a coragem de dizer que não há condições para proibir aos sapateiros o mesmo que se não proíbe aos actores infanto-juvenis. Então continuaremos a dizer e a pensar que o sapateiro de Braga era um visionário utópico, o que sinceramente muito nos custa.

Ainda há dias relíamos as declarações de uma campeã mundial de ginástica e ela, dizia esta coisa espantosa: «o meu treinador obrigava-me a subir à barra tantas vezes ao dia que nunca as pude contar e, contra o meu choro, que tinha por obrigação abafar, ele (treinador) batia-me algumas vezes quando os meus desempenhos não atingiam os seus objectivos. Fui campeã aos 14 anos». Foi campeã aos 14 anos e ficamos a saber agora que também, certamente bateu o record do sofrimento, das lágrimas abafadas, das nódoas negras das quedas na trave, das bochechas afogueadas das bofetadas… ora bolas para o título. O que não daria esta atleta por ser uma miúda que pudesse jogar à corda com as outras do seu tempo? Por isso, todo o trabalho que obrigue crianças a deixar de ser crianças, indiferentemente de coser sapatos, carrear tijolos, ou representar de menino prodígio, é uma indecência. A dignidade do homem começa na dignidade de criança.




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