Fotografia:
Natal de 2003

A história é muito simples. Fala de um limpador de telefones públicos e, se se quiser, é também uma boa metáfora. Foi escrita pelo romancista, contista e cronista Ignácio de Loyola Brandão, um dos mais prestigiados escritores brasileiros.

N/D
21 Dez 2003

Por mais de duas dezenas de obras suas, algumas das quais adaptadas ao teatro e ao cinema, andam temas como a ditadura militar brasileira; o exílio; a infância em Araraquara, onde nasceu em 1936; ou o quotidiano da cidade de São Paulo.
O texto que aqui se transcreve fixa precisamente uma cena do dia-a-dia paulista. Foi publicado em O Estado de S. Paulo, no dia 21 de Dezembro de 2001 – há exactamente dois anos, portanto – e parece bastante adequado para assinalar o período natalício.

Meu poema de Natal

Ele chegou, depositou a caixa de madeira na calçada.
Olhou em torno.
Abriu a caixa, retirou uma flanela, dois panos e uma bisnaga plástica.
Os panos eram sacos de farinha, desses vendidos nos cruzamentos, para transformarmos em panos de prato, panos de chão.
Ou panos para lavar automóvel no sábado, um ritual paulistano.
Ele passou a flanela, lentamente, para retirar a poeira.
Não tinha pressa, mostrava-se concentrado.
A flanela ressurgia escura, da fumaça que tudo impregna.
Ele apanhou um dos panos e umedeceu, passou com muito cuidado pelas curvas, como se estivesse acariciando o corpo de sua mulher.
Passou uma, duas vezes, invertendo os lados do pano.
Quando percebeu que o pano voltou branco do esfrega-esfrega, deu-se por satisfeito.
Deu uma volta completa em torno do objeto, avaliando. Deve ter encontrado uma poeirinha, resquício, porque passou a manga do próprio jaleco, retirou o que viu. Perfeccionista!
Abriu outra vez a caixa, apanhou uma lata, retirou a tampa.
Dentro havia cera incolor e uma pequena esponja.
O cheiro da cera era forte, lembrando tempos em que as pessoas enceravam casas, usando escovão ou enceradeira e os soalhos brilhavam.
Atividade doméstica, corriqueira, realizada no fim de semana, quando também se lavavam calçadas.
Embebeu a esponja na cera e passou suavemente sobre o objeto.
Como se estivesse fazendo limpeza de pele na mulher amada.
Não se incomodou com a minha presença, ao contrário, parecia satisfeito, executando sua performance.
Ele era o ator, eu o espectador único, fascinado.
Jamais tinha presenciado coisa igual, uma atividade insólita.
Esta cidade está cheia de profissões singulares que surpreendem e encantam.
Variadas maneiras de sobreviver, defender a vida. Persistir.
Algumas formas são criativas, como os jongleurs que, nos cruzamentos, fazem malabarismos com bolas ou tochas de fogo, depois passam o chapéu.
No entanto, todos mantêm os vidros cerrados, encerrados em miniprisões que
se locomovem, nos conduzindo de casas cheias de grades para empregos cheios de pressões.
Passada a cera, o que demandou certo tempo, o homem descansou um pouco.
Ou talvez a cera exigisse breve espera, para agir com eficácia. Nosso homem abriu outra vez a caixa, tirou o que se assemelhava a um cachecol de lã, comprido.
Jogou o cachecol (digamos cachecol) por cima do objeto, apanhou a ponta do outro lado.
Fez com a perícia de quem está acostumado, conhece o ofício.
Começou lentamente a polir a tampa de plástico liso e amarelo.
Fazia com maestria, de tal maneira que nenhum centímetro (digamos milímetros) escapava ao polimento.
Como se engraxasse um sapato gigante.
Alternava lentidão com fúria, consciente do ritmo a se imprimir.
Com a bisnaga aspergiu água sobre a tampa polida, que agora brilhava ao sol matutino.
Como se benzesse o próprio trabalho.
Não pareceu satisfeito.
Afastou-se, rodeou o objeto, passou o cachecol aqui e ali, tirando manchas invisíveis aos olhos normais (os nossos), não aos dele.
Entrou sob a concha e tirou o pó. Limpou o telefone, olhou o bocal.
Teria deixado tudo branco imaculado, não fosse o aparelho preto.
Fiquei feliz ao ver uma pessoa que trabalhava com seriedade, um profissional.
Coisa rara hoje, todo mundo “mata o serviço”.
Ele poderia dar uma passada rápida de pano e ir embora, deixar o orelhão ali.
Imagine se tem fiscal verificando? Bom seria se tivesse, teríamos duas vagas preenchidas.
Os engraxates dos orelhões da Telefonica e os fiscais dos engraxates de orelhão.
Esta cidade me surpreende a cada momento e cada vez que penso ir embora, dou com uma pessoa assim, fico.
Um engraxate de orelhão que prepara o clima para que a gente entre debaixo de uma concha plastificada, amarela, brilhante.
E fale sentindo a limpeza, conforto.
O engraxate guardava suas coisas.
Fui ao orelhão, coloquei meu cartão (não uso celular) e fingi discar para alguém.
Ele me olhou, eu disse “obrigado, ficou bonito”.
Ele sorriu, gratificado.
“Quando está limpo, bonito, as pessoas não quebram, não acha?”




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