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Nova cultura do ‘stand-up comedy’

Nos últimos tempos tem proliferado um novo tipo de espectáculo: o ‘stand-up comedy’, isto é, ‘comédia em pé’ (ou como diz um programa televisivo, traduzindo ao sentido: ‘levanta-te e ri!’), que consiste num desfilar de comediantes em palco contando cada qual a(s) sua(s) anedota(s) diante de um público quase contratado para a aplaudir… piadas, insinuações, episódios, trejeitos, imitações… nalguns casos a roçar a brejeirice e numa linguagem multi-interpretativa ao sabor de quem ouve e acirrando quem diz.

N/D
20 Dez 2003

Já há heróis – uns com sotaque, outros com claque e muitos com destaque – crepitando na fogueira do cinzentismo nacional, tal é a avidez de rir, pois esta atitude diante das coisas da vida ainda não paga imposto (iva, irs ou pec) nem é propriedade exclusiva de qualquer televisão, seguradora ou grupo económico-financeiro!
Sem qualquer atitude de desmancha-prazeres gostaríamos de descortinar as razões do sucesso deste ‘stand-up comedy’ nacional bem como o de tentarmos interpretar outros fenómenos idênticos nalguns sectores da (nossa) vida pública.

* O que se passa no palco é tanto ou mais revelador da nossa situação colectiva: é a rir, ou por entre sorrisos, que se poderá corrigir o nosso inconsciente colectivo. Que o digam as nossas ‘canções de escárnio e mal-dizer’ do galaico-português!…

De facto, o panorama social e artístico nacionais parecem sofrer de amnésia colectiva, tal a visão esteriótipada, anódina e inconsequente do que se diz, faz ou propõe. Os ‘programas’ de entretenimento servem mais para a exaltação do ego de certos actores do que para a dinamização cultural do povo a que se destinam.

As piadas de ‘cabaret da coxa’ circulam em sistema fechado, onde certos tiques afectados se entendem e são entendidos pela clique ofuscante de hermaníacos e quejandos. As observações mais mordazes têm a matiz da ‘contra-informação’, apesar da medição de popularidade dos visados na ridicularização nacional. Eis a comédia montada, proposta e atenta!

* Outra faceta do ‘stand-up comedy’ são os inesperados elogios – até de adversários e comentadores políticos – a uma das forças políticas parlamentares com os parcos deputados, semestralmente, em rodagem no hemiciclo, a conseguirem aplausos da inépcia nacional reinante, saudando-lhes as iniciativas mais ou menos audazes, intrepidamente sequentes das (suas) causas, onde se nota alguma ousadia intelectual dentro da lógica anarco-caviar. O show está a resultar. Os figurantes têm atractivo… A simpatia está promovida! Até quando?

* Nesta época natalícia o circo está montado: inúmeros espectáculos de beneficência, campanhas de solidariedade q.b., bons desejos e denúncias a provocar a lágrima… Também aqui – mal parecia que assim não fosse, ao menos pelo Natal! – encontramos indícios do ‘stand-up comedy’ numa versão mais sentimental e a roçar a emoção volátil. De facto, algumas iniciativas arrancam sorrisos não só pelos promotores empenhados, mas, particularmente, pela inconsequência de tais projectos.

Mais do que ‘fogo de vista’ importa criar condições para que os mais desfavorecidos – crianças, adolescentes, idosos, desempregados, marginalizados, etc. – tenham capacidade de serem pessoas com dignidade e não meros joguetes em mãos de habilidosos/as ao sabor dos seus intentos mais ou menos subterrâneos!

A rir a rir se castigam os costumes. Com todo o respeito, ousamos pedir: não façam do nosso país uma comédia nacional e… internacional!




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