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O calor daquela noite

O bacalhau está posto em água desde há dias, mais do que o habitual porque este é mais alto que o do resto do ano; logo à noite tem que se ver se já está bem demolhado.

N/D
19 Dez 2003

Amanhã há que sair para arranjar o resto das coisas precisas para a Consoada: primeiro ir ao mercado comprar as couves, quanto mais cedo melhor para apanhar as mais frescas e viçosas, e os ovos (que estão à espera da freguesa em cima do feijão branco ou amanteigado, nas pequenas sacas de riscado); depois, no regresso a casa, passar pela mercearia para comprar as batatas, daquelas que se desfazem e das outras para contentar o gosto de todos, e mais a cevada, para ser mais fresquinha que o habitual que a ocasião bem o merece, e ainda as passas mais os pinhões e as frutas cristalizadas, sem esquecer um reforço de lenha para o fogão, não vá ela faltar no último instante, e para encomendar o bolo-rei, do que há-de chegar logo a seguir ao almoço, que depois para a noite quer-se do mais fresco. Que Consoada sem bacalhau e sem bolo-rei nem sei o que parece.
Para depois do almoço ficam os preparativos caseiros, o primeiro dos quais tem de ser amassar a farinha para as broinhas, de maneira que possa levedar o bastante para elas ficarem fofinhas e saborosas. A seguir, o melhor é arranjar as couves com calma; e daí a bocado descascar já as batatas e deixá-las em água. Porque devagar se vai ao longe.

Quando o marido e os filhos crescidos chegarem como de costume ao fim da tarde, tudo há-de estar em ordem para começar a fazer o jantar; que os mais novos estão ainda em casa, mas já têm tarefas distribuídas: os mais velhinhos vão até ao monte apanhar o musgo para o presépio, enquanto os mais pequenos estão encarregados de ir buscar o caixote com os bonecos de barro e de os começar a desembrulhar, com a expectativa dos outros anos: «Qual acham vocês que é este boneco?», ou «Olhem, descobri a lavadeira!», ou «Eu desembrulhei agora o pescador!», ou ainda «Vamos ver quem acha o Menino Jesus!»

Na mercearia o pessoal prepara-se para cumprir o horário de sábados e véspera de feriados, fechar às nove da noite. O patrão e o caixeiro vão atendendo os fregueses de última hora; o marçano, entregues que estão as encomendas em casa dos fregueses e feitas as arrumações que lhe competem, tem autorização para sair antes dos dois adultos para se juntar à família, que a Noite é especial. No entanto, sabedor da tradição na loja, de que o colega mais velho já lhe falou, diz que pode ficar ainda mais um bocado; e, solícito, oferece-se para ajudar em tarefas mais pesadas ou importantes tanto mais que, posto o sol, o frio já aperta e ele também quer enfrentá-lo com mais conforto.

E numa atitude mais de acordo com a sua juventude (não é que os dois adultos não esperem a senhora Maria também com alguma ansiedade) ele vai tirando para dentro e arrumando aqueles artigos que estão expostos à vista de quem passa. Jogo em que o proprietário participa sem o dar a entender, pois que afinal espera o mesmo que o rapaz.

São oito e meia a passar, quando, vindo do frio da noite, se ouve: «Santa Noite nos dê o Menino e Boas Festas também». E os três à uma olham para a porta da loja, onde vêem entrar a senhora Maria com a “condensa” à cabeça; figura que de imediato aquece os seus corações, numa antecipação do conforto que os seus corpos vão sentir com as broinhas de Natal ainda mornas acompanhadas da cevada bem quente que a boa da senhora, mantendo a tradição da quadra, vem trazer mais uma vez.
É o tempo em que algumas cidades parecem vilas e muitas destas se semelham a aldeias. Em que não se sonha ainda com supermercados e muito menos com grandes superfícies. Estamos no século passado… apenas a cinquenta anos de distância dos nossos dias.




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