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Meditação sobre o Outono

Àmedida que nos embrenhamos no Outono, a noite regressa cada vez mais cedo, exigindo que os dias diminuam cada vez mais, até à sua ínfima expressão, em 21 de Dezembro, solestício do Inverno.

N/D
19 Dez 2003

Começam a tornar-se mais frequentes as chuvas e os dias cinzentos, a temperatura baixa continuamente, obrigando-nos a recolher a casa, logo que possível, e a sair de lá nos momentos indispensáveis.
Chegou a vez de as folhas se desprenderem dolorosamente das árvores, arrastadas pelo vento em todas as direcções.

Em suma, parece que tudo caminha para a morte, recordada pelos ramos secos das árvores que se erguem para o céu, em prece silenciosa.

É o tempo de férias das árvores. Alguém comentava que, no meio deste silêncio, as árvores crescem por dentro. Se não fora esta pausa anual, como pode-riam dar-nos folhas e flores na Primavera e frutos em tempo oportuno?

E, no entanto, o Outono tem beleza. Já repararam na sinfonia de cores das folhas das plantas, percorrendo todas as tonalidades, a começar no amarelo desmaiado, passando pelo vermelho de sangue das folhas das videiras?

Pensava nisto – o Outono estava prestes a começar – quando fui sacudido por uma notícia: ali perto, um homem jazia prostrado, em jeito de quem não aguenta mais o sono e a fadiga e se entrega ao descanso na mãe-terra.

Aos poucos, como a manhã quando avança, foi-se fazendo luz naquela notícia telegráfica.
Era um pai e esposo exemplar, trabalhador sério, ocupando os sessenta minutos de cada hora, apesar de o género de trabalho que lhe estava confiado não fosse propriamente vigiado.

Chamava a atenção da família pelo seu amor a esta missão que Deus lhe confiara. Chegou a emigrar, à procura de melhores condições de vida, mas, pressentindo que os filhos estavam numa idade em que precisavam mais da sua presença, apressou-se a regressar.

Gostava mais de pensar do que de falar, e talvez isto o tenha feito sofrer, algumas vezes.
Mas era participativo na vida da so-ciedade de que fazia parte. Transportava a bandeira dum rancho folclórico. Foi assim que o vimos pela última vez na festa da inauguração da igreja.

Morreu a trabalhar. Certo dia aproximou-se do pároco e disse-lhe que era preciso fazer uma limpeza às ervas do adro, antes da festa, e ele estava pronto a colaborar, depois do seu horário de trabalho cansativo, ao serviço da Junta de Freguesia. Não seria possível conseguir mais alguém?

Meteu mãos à obra e trabalhou duramente no espaço envolvente da nova igreja – da sua igreja, a que doara também o suor do seu rosto em donativos – e ela apareceu mais bela.

Quem terá pensado, no dia da inauguração, que toda a beleza deste grande dia fora conseguida à custa de esforços anónimos, que acabado o trabalho, não esperaram sequer por um “muito obrigado” ou sorriso de agradecimento?

Era piedoso. Já liberto do horário do trabalho, gostava de regressar apressadamente a casa, para acompanhar, com os que já tivessem regressado, o Terço transmitido da Capelinha das Aparições pela Rádio Renascença.

Sem respeitos humanos, participava na Eucaristia dominical, somando a sua voz à da assembleia, nos cânticos litúrgicos.

Foi um homem que cresceu por dentro, num trabalho humilde e silencioso, sob o olhar complacente de Deus e de Nossa Senhora a quem tanto amava.

Aos olhos dos homens, foi mais uma folha que se desprendeu, no outono da vida. Mas aos de Deus, foi uma pedra preciosa que reflectirá a beleza, a bondade e santidade do Senhor… para sempre!




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