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Natal e solidariedade

A festa de Natal, que se aproxima, é oportunidade para que cada um de nós, mais uma vez, pense no dever de ser solidário. Não apenas para com os que nos são simpáticos, mas para com todos. Não apenas um dia no ano, mas sempre. Todos os dias os outros existem. Todos os dias os outros precisam de nós. Todos os dias lhes podemos ser úteis.

N/D
18 Dez 2003

A solidariedade é, para nós, os cristãos, um outro nome da caridade. Caridade que é a expressão do amor na sua forma mais sublime: o amor desinteressado, o amor oblativo, o amor feito dom e serviço.
Identifica-se muitas vezes a caridade com a esmola, qualificando-se de caritativo um indivíduo que é esmoler. A esmola, porém, não é a única forma de praticar a caridade.

Não sendo a única, é uma das formas importantes de a praticar. E vem a propósito citar a Nota Pastoral do Episcopado Português, por ocasião do 150.º aniversário da morte de Frederico Ozanam, tornada pública em 13 de Novembro: «No mundo actual, a pobreza continua a ser um grave problema social, difícil de controlar. Nem o avanço da técnica nem as mutações culturais conseguiram controlá-la. Como ontem ainda hoje a caridade, carisma fundacional dos vicentinos, se afirma como sinal profético do compromisso cristão. E ninguém tem o direito de se arrogar, com verdade, o título de cristão se não põe em prática o dever sagrado da caridade para com os mais carenciados, que continuam à espera de quem lhes reconheça a dignidade original de seres humanos, os trate como irmãos e filhos do mesmo Pai que é Deus e com eles reparta generosamente os bens materiais e espirituais».

A vivência da solidariedade – para os cristãos, a prática da caridade – é uma forma de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna.

É verdade que para que tal sociedade exista tem de deixar de haver pessoas a quem falte o necessário para poderem viver com dignidade. A sociedade mais justa passa por uma melhor e mais equitativa distribuição da riqueza. Mas a sociedade mais justa e fraterna exige também um melhor relacionamento entre os homens.

Isto pressupõe que cada um, seja ele quem for, se sinta respeitado na sua dignidade e nos seus direitos. Isto pressupõe que cada um actue como quem vê de facto, no outro, um irmão. Isto pressupõe que todos tenhamos a lucidez e a humildade necessárias para reconhecermos a existência de um Pai comum.

Diz-se no relato do nascimento de Jesus que não houve na hospedaria lugar para uma grávida. Diz-nos São João que Jesus – o Verbo feito homem, Deus incarnado – veio para o meio dos seus, mas os seus não o receberam.

Celebrar o Natal é dar, no coração, lugar a Jesus e à sua mensagem de amor e de paz. Celebrar o Natal é tornar Deus presente na sociedade humana. E a tal sociedade mais justa e mais fraterna exige que os homens reconheçam a soberania e também a misericórdia e o amor de Deus.

Uma sociedade sem Deus – e lutam por a construir no nosso Portugal de hoje – redunda numa sociedade contra o homem. Redunda numa sociedade que priva o homem da sua dimensão transcendente. Redunda numa sociedade onde o homem explora o outro homem, onde o homem coisifica o outro homem, onde o homem se serve do outro homem. Uma sociedade sem Deus redunda na sociedade dos auschwitz e dos gulag, do aborto e da eutanásia, do egoísmo e da avidez do lucro, dos presos sem culpa formada e do vale tudo. Uma sociedade sem Deus redunda numa sociedade em que os poderosos vivem como senhores e os mais débeis vegetam na condição de escravos.




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