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Festa dos vencidos

Recordo a primeira vez que li o poema de Ruy Belo “Nós os vencidos do catolicismo”. Sei que me deixou uma impressão amarga e inquieta acerca de tantos cristãos que apostaram numa formação em profundidade e deram por si, numa sequência de desistências ou alternativas, ouvindo a Carmina Burana em vez de «adorar em espírito e verdade». Jorge de Sena, que visitou algumas destas angústias, diria doutra forma: «roubam-me Deus, outros o diabo, quem cantarei?»

N/D
18 Dez 2003

O Tempo e o Modo foi uma pequena bíblia de procuras e questionamentos sobre a evolução da Igreja, os desafios do Vaticano II, as grandes mudanças dos meados do século XX e até os confrontos sobre uma sociedade a emergir com novos valores. Tudo isto aconteceu com gente dentro, nos leigos, padres e bispos, militantes políticos, germens silenciosos de outros tempos que viriam a explodir, sem peias, na revolução, na democracia, nos partidos políticos de extremos, na rotura com instituições, na fragmentarização da família, autoridade e Igreja. Os anos sessenta constituíram um verdadeiro abalo sobre tantas torres seguras, muitas delas, mais por circunstâncias de tempo que por consistência própria.
Onde está essa gente, pergunta-se? Esses leigos ou padres, não são desertores duma praça de combate. Muitos deles abandonaram, nem sempre pelas mesmas razões, o contacto com a Igreja numa marginalização complexa de definir em todos os contornos.

Alguns já partiram. Outros, na síntese pessoal da própria história, fazem uma nova leitura dos sinais dos tempos, não renegando o caminho que tomaram, mas reconhecendo que a maturidade da vida permite novos olhares sobre todas as coisas. E que não faltam praças de reencontro.

Muitos têm, neste tempo de Natal, ajudado com a sua reflexão a descobrir tantas convergências que antes pareciam impossíveis. É um abraço ténue, novo, natalício, «sem vencedores nem vencidos».

* In Agência Ecclesia




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