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O problema das “traduções-criativas”

1- O pecado do melhor guia de aves europeias. Da autoria de Mullarney, Svensson, Zetterström e Grant, foi recentemente publicado o mais completo e perfeito guia de toda a avifauna da Europa, norte de África e Ásia Menor. Os desenhos, as cores, a quantidade de espécies descritas (722!), o n.º de ilustrações por cada ave, a actualização dos mapas, a boa inserção nas páginas, por tudo isto o recém-publicado “Guia de Aves” da Assírio e Alvim ultrapassa em qualidade as obras anteriores sobre o mesmo assunto.

N/D
17 Dez 2003

Mas enferma de um pecado gravíssimo: a tradução para português de muitos dos nomes das espécies está incorrecta, desrespeita nomes já estabelecidos há décadas a nível português e privilegia “regionalismos” de origem duvidosa (se é que estes não são mesmo puras invenções dos tradutores). Na pág. 2 do livro vêm listados 3 tradutores (2 mulheres e um homem) e um corpo de 9 dedicados revisores técnicos, incapazes contudo de travar o fogo-de-artifício de desnecessários neologismos ornitológicos.
Os neologismos, nem mesmo quando são necessários para preencher espaços vazios do vocabulário, nem assim são simpáticos às classes cultas. O que fará quando se sobrepõem a nomes pacificamente estabelecidos entre o vulgo e entre a comunidade científica.

2 – Coincidência de todas as obras anteriores quanto aos nomes. Todos os guias sobre aves da Europa anteriormente publicados em Portugal (confesso que os tenho todos, pois sou ornitólogo amador há mais de 20 anos), todos esses guias, dizia, raramente divergem na designação de alguma espécie. Nada que se compare com o actualmente criticado “Guia de Aves” publicado pela Assírio e Alvim.

Neste magnífico guia há, infelizmente, dezenas de espécies cujos nomes foram alterados, ou desnecessariamente recriados, com base sabe-se lá em quê e com que obscuros intuitos. Dá a impressão de que os tradutores nunca tinham lido um guia de aves e que tudo aquilo seria um mundo novo para eles. Ou então que quiseram ignaramente “fazer escola”, desta forma tão fácil. Ou que, pior ainda, tomaram a atitude daqueles “selvagens modernos” que gostam de deixar o seu “grafitizinho” na parede dum monumento, ou o nome no interior duma caverna com arte rupestre…

3 – Torpedeando um trabalho de 18 anos. Em muitos casos, os neologismos ou os “regionalismos” dos tradutores foram tão polémicos, que eles próprios aparentemente não se entenderam entre si e por baixo do nome português puseram o nome verdadeiro (ou uma variante por eles próprios recriada). É que o nome das aves (como aliás o dos outros animais e plantas) varia usualmente de região para região. E é por isso mesmo que há já nomes definitivos na língua portuguesa, bem sedimentados pela vulgarização que felizmente tem ocorrido dos manuais e guias zoológicos de campo, sobretudo desde os anos 70.

O interesse começou com “A Fauna”, do saudoso Félix Rodriguez de la Fuente. E continuou com a publicação em Portugal do guia de Peterson-Mountfort-Hollom. Depois com o de Singer e Bruun (o da “Fapas”). E também com o guia fotográfico de Steinbach (bem revisto pelo prof. Fernando Frade). Entre outros. O meu interesse pela matéria é tal, que p. ex. devo ser dos poucos portugueses que adquiriram os 7 monumentais volumes do “Birds of Africa” de Urban-Fry-Keith…

É por estas e por outras que me sinto no direito (no dever) de protestar contra esta investida dos tradutores contra um duro e valiosíssimo trabalho, que segundo os autores demorou 18 anos a concluir: desde 1982 a 1999. E é por estas e por outras que ainda bem que cada espécie tem um nome científico. E que, além disso, tem também um “2.º nome científico” em inglês, que é infelizmente uma espécie de “novo latim”, quando não mesmo, de “novo português”, pois com tradutores-inventores deste jaez, não há nada a fazer.

4 – Exemplos da inconsistência dos regionalismos. Só três exemplos. Assim, em Trás-os-Montes costumam chamar “gralhas” aos “abelharucos” ou “melharucos”, sendo a verdadeira e bem negra gralha um típico corvídio; e o coloridíssimo abelharuco um meropídio. Um 2.º exemplo: no Brasil costumam chamar “gavião” (um accipiterídeo) a várias aves que cientificamente são “águias” ou búteos. E nos EUA chamam “blackbird” (melro) a várias aves que, embora negras, estão mais perto das oriolas (ou papa-figos) que dos melros, que são turdídeos.

5 – O pouco relevo social dos tradutores em Portugal. Infelizmente, ao contrário do que deveria ser num país como Portugal, tão virado para falar línguas estrangeiras, especialmente o “americanês”, o prestígio social dos tradutores é pequeno e a profissionalização quase nula. Daí que, desde sempre tenha havido casos de más traduções de nomes de lugares, algumas das quais se irão enraizar se nada se fizer.

Os exemplos já vêem do séc. XIX. Quando a região do Cáucaso a que os russos chamam Grúzia (e os naturais, Sakartvelo) foi traduzido para português pelo equívoco nome de “Geórgia”, gerou-se a natural confusão com o estado homónimo norte-americano, farol dos gloriosos Confederados. Ou quando o notável músico checo Bedrich Smetana (1824-84) escreveu uma célebre obra sinfónica acerca do rio da cidade de Praga, o Vltava (em alemão, rio Muldau), os nossos tradutores, sempre tão desconhecedores do vasto mundo eslavo, ao traduzirem o seu nome para “Moldávia” (em vez de, p. ex., “Muldava”) geraram logo uma inútil confusão com aquela região fronteiriça romeno-ucraniana (hoje independente) que dá pelo nome de Moldávia (a antiga Bessarábia).

O mesmo se repetiu quando do advento de Walesa e da queda do muro de Berlim. Certos senhores das agências de notícias, ignorando que há séculos se diz em português Breslau, Stetine (Stettin) ou Dantzigue (Danzig), optaram pelas complicadíssimas formas polacas de Wroclaw, Szczecin e Gdansk. Só que, p.ex., Wroclaw lê-se “Frótzuaf” em polaco…

Outro erro grave é dizerem que o habitante da Bósnia é o “bósnio”; desconhecendo que já se dizia em português, desde há 100 anos, “bosníaco” ou “bosniano”. Aliás, todos já devem ter detectado os múltiplos e indesculpáveis erros de palmatória que se ouvem nas traduções dos excelentes programas dos canais Odisseia e História. Até nos telejornais ouvi há anos certa locutora dizer “ilhas Chanel” referindo-se às ilhas do canal da Mancha (Jersey, etc), porque em inglês se dizia “Channel Islands” (ilhas do Canal)!

6 – Voltando ao Guia de Aves… A terminar, respigamos do Guia algumas das tais “traduções criativas”. Assim, “charneco” (pêga azul), “picoteiro” (tagarela), “seixa” (pombo bravo), “charrela” (perdiz cinzenta), “carraceiro” (garça-boieira), “lagopo” (lagópode), “águia” (tartaranhão ou circo), “solitário” (rouxinol-do-mato), “coruja cinzenta” (c. da Lapónia), “macho rabilongo” (coruja-gavião), “pombalete” (fulmar glacial), “cagarraz” (mergulhão de pescoço preto) ou “britango” (abutre do Egipto). E mais haveria, se estes exemplos não bastassem. Façam pois uma edição corrigida, pois há razão para tal.




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