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Velha Europa ou Europa velha?

Habitualmente, quando falamos do nosso continente, chamamos-lhe “Velha Europa”.Nesta denominação, carinhosa e adequada, queremos realçar o que nesta terra existe de experiência acumulada e passado glorioso. Foi nela e a partir dela que se forjaram os grandes traços da civilização actual, salpicados de rasgos comuns e de variedades bairristas – línguas, modos de ser, costumes, tradições religiosas, etc. -, que falam duma diversidade significativa e, simultaneamente, de algo de comum, que animou o continente a que pertencemos durante séculos e séculos.

N/D
16 Dez 2003

Hoje, porém, quando reflectimos sobre o que somos e como somos – nós, europeus -, parece levantar-se à nossa consideração uma série de interrogantes, que nos levam a pensar seriamente se ainda continuamos a ser a “Velha Europa” que vimos nascer e expandir-se, ou, pura, triste e simplesmente, uma “Europa Velha”. Dá a ideia de que ela nada tem para oferecer aos outros senão uma espécie de reforma pacata, de anciã egoísta e estagnada.

Dir-se-ia que se desiludiu com as agruras da existência e não pretende outra coisa do que deixar-se estar onde está, num presente que quer eternizar, sem pensar no futuro que ainda há-de vir e com a consciência de que o seu passado não passa duma relíquia que deu o que tinha a dar. Por outras palavras: o passado é apenas isso e não uma realidade que construiu e que, de alguma forma, constitui uma espécie de alicerce do que ela é, de bom e de mau. Já não lhe serve de experiência; está ali, perante o seu olhar enfraquecido, cansado, vesgo até, que não quer saber de gestas e de atitudes heróicas, mas apenas da sua reforma calma e cálida, que ninguém deve perturbar, pese embora o que nisto exista de egoísmo e de irrealismo. Não interessa; o importante é manter os braços cruzados, a capacidade de bocejar à vontade, o direito à sesta reconfortante e a garantia de que, hic et nunc, ninguém vai incomodar a sua letargia de velha reformada.

Uma consequência imediata desta velhice ressequida é a incapacidade de se sustentar geracionalmente. A Europa não tem filhos; importa-os de outros continentes e de outras civilizações.

Aí, sim, a Europa parece que já deu o que tinha a dar; é a impotência dos velhos. E como só pensa no presente imediato, inventa teorias que não sabe se se cumprem sobre os problemas da superpopulação futura, que receia como um tipo de cataclismo horroroso: é o temor dos velhos pelo dia de amanhã. Estéril, olha as crianças com circunspecção e convida os seus casais novos a terem muito, muito cuidado com a procriação. Adiá-la até se sentirem totalmente capazes; é a insegurança dos velhos perante a responsabilidade.

Por outro lado, um filho representa despesa acrescida; logo, há que pensar muito bem quando e como e se… economicamente isso não representa uma hecatombe financeira para os progenitores. Eis a fraqueza da terceira idade perante as despesas, que são sempre conjecturadas dentro do âmbito preciso da reforma que usufrui e sem outros panoramas de melhoria, porque ser reformado não tem como horizontes alterações, riscos ou, singelamente, uma aventura atraente, mas passar o tempo sentado no sofá do que a pensão de reforma lhe dá.

Não lhe compete a ele criar riqueza, mas receber o que lhe é possível fornecer o ambiente onde trabalhou.

Uma sociedade deste tipo tem dificuldade em entender a existência fora de outro parâmetro que não seja o de quem vive instalado no presente e não tem mais perspectivas. Daí que se torne necessário preservá-lo, de modo a evitar complicações ou molestos problemas aos que se encontram agora por cá, ou seja, a quem está vivo e receia a todo o custo que haja factores que deteriorem o seu presente cómodo. Por isso, se existem muitos nascimentos, ou melhor, se as leis da geração humana funcionam de acordo com a natureza, vem ao de cima o complexo e velho ditado “quem tem filhos tem cadilhos”, e descobrem-se nos eventuais neonatos devoradoras bocas que ameaçam a estabilidade de quem quer comer sem complicações – e a horas! – a dieta da fartura; do mesmo modo, que fazem cá os que já não podem saborear com aproveitamento a doce vida? São um empecilho, que é intolerável permitir.

Aborto, anti-concepção e eutanásia fundamentam neste caldo de burguês refocilamento uma das suas justificações mais plausíveis, apesar de as razões que se esgrimem para melhorar a legalidade ética da sua prática – considerada indispensável a todo o custo -, não primarem pela clareza e pelo rigor científico.

Enfim, num cenário tão deliquescente e sombrio, a Europa dá ainda provas da sua senilidade, quando perde a memória e pretende elaborar um documento comum de referência, onde esquece que a sua eficácia e a sua pujança se deveram, em boa parte, ao facto de terem sido alicerçadas sobre uma concepção de vida baseada na pregação dum operário galileu, Jesus Cristo, que pregou o amor radical entre todos os homens, sendo morto por isso mesmo. Esta mensagem cativante, que os seus discípulos europeus assumiram e levaram a todos os recantos do mundo por onde se espalharam, é a principal marca que ainda vigora da sua passagem por esses lugares. Como é natural, a uma velha confusa e desmemoriada, roída pela arterioesclerose, não se pode pedir muito mais. Olha-se para ela com comiseração e respeito, mas o que diz, o que pensa e o que faz já não pode levar-se a sério. “Velha Europa”? Não: “Europa Velha”.




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