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A tristeza do povo português

Somos um povo muito triste, o mais triste da Europa, segundo reza um estudo feito não sabemos por quem, mas revelado na comunicação social com foros de verdade indesmentível.

N/D
15 Dez 2003

Ficamos a matutar no caso sem encontrar razão para a amargura lusitana. E questionávamo-nos desta maneira: então temos romarias por quanto é lugar onde rimos e saltamos, possuímos festas de enorme projecção nacional como o São João, o São Pedro e o Santo António, onde os folguedos e as brincadeiras se misturam em noites de folia, Portugal tem sol durante imenso tempo e não aquele nevoeiro londrino que faz taciturno o mais alegre dos mortais e ainda, mesmo assim, somos dos povos mais tristes da Europa? Como é que mediram esta tristeza? Nós que éramos um povo que dizíamos a cada passo – “tristezas não pagam dívidas” -, então agora andamos com ela às costas como tartaruga ajoujada ao peso da carapaça? Não me digam que há um curso novo (mais uma engenharia?), que tem uma disciplina de tristeza comparada? É que só assim é que se compreende.
Ainda que não sendo nós um cidadão do mundo sempre já tivemos ocasião de observar outras gentes e notar-lhes os comportamentos em público; não vimos, por exemplo, nos belgas, nos franceses, nos espanhóis, nos italianos, nos ingleses ou dinamarqueses, mais alegria do que a que se observa no rosto dos portugueses. Nenhum deles anda permanentemente de tacha arreganhada ou aos pulos de contentamento no meio da rua. Antes pelo contrário, sempre me pareceram mais frios e distantes do que os portugueses. Somos um povo que até das situações mais sérias inventamos e contamos anedotas. Existem neste país humoristas em cada esquina, alguns profissionais que não valem muito e outros amadores que têm imensa piada. Rimo-nos com facilidade de nós mesmos.

Gostamos da Revista à Portuguesa por ser graciosa nos seus ditos. Por isso não entendemos a razão ou as razões desta tristeza que dizem possuirmos em tal abundância que se nos nota na cara.

Os portugueses também não têm razões para tristezas porque não possuem nenhum dos grandes males da humanidade: fome, peste e guerra. Não temos entre nós falta de amor ao próximo: as campanhas de solidariedade têm somado êxitos. Então o que se passa? Dois exemplos entre outros: um homem quase morreu num dos hospitais do Estado porque o técnico que trabalhava com a TAC, aproveitando o fim de semana prolongado só se apresentou ao serviço na terça-feira seguinte. E não havia mais ninguém que o substituísse? É verdade, pasme-se! Este homem podia ter morrido.

Aqueloutro não lhe foi ministrado o laser na extracção de cálculos renais (ou biliares?) porque mesmo havendo esse aparelho no hospital ninguém está habilitado a utilizá-lo. E ninguém cuida de formar técnicos nesta área?! Não. Mas na educação, então não dizem que existem favores na colocação de professores?! E ninguém responsabiliza ninguém? Fica tudo na mesma?! Assim parece. Nos Açores outro foco de abuso de menores vem engrossar a já longa lista da pedofilia. E a consciência nacional parece já não ter a mesma sensibilidade que exprimiu aquando do escândalo da Casa Pia. Que perigo estamos a correr com a habituação aos males! E po-díamos ir para a economia, para a justiça e quejandas situações que certamente gastaríamos todas as cores pretas deste planeta de tristezas.

Moral da história: os portugueses não são tristes; o que não têm é motivos para grandes alegrias.




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