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Sá Carneiro – herói e mártir da terceira República

Nasceu no seio de uma família conservadora, burguesa e profundamente católica. Educado dentro dos princípios da trilogia Deus, Pátria e Família, deixa para trás, mais tarde, esses valores que eram o símbolo doutrinal do Estado Novo! Foi uma criança com uma infância feliz, vivida na companhia da mãe Maria Francisca, do pai José Gualberto e dos seus quatro irmãos, no prédio com o número 49 da rua da Picardia, na cidade do Porto. Um imóvel de três pisos, com amplos salões, jardim com lago – uma casa que mais parecia um museu. Mesmo de fora adivinhava-se que ali morava a alta burguesia.

N/D
12 Dez 2003

As férias eram divididas entre a casa da praia na Granja e a casa da Quinta do Eirado de Esperigo, em São Miguel de Manhente (Barcelos).
E como a infância e a adolescência não duram sempre, o Menino de Ouro de Agustina Bessa-Luís vai espelhar o passado de seu pai, cursando direito na Universidade de Lisboa.

Já com o diploma da licenciatura no bolso, regressa à terra natal para iniciar a carreira de advogado.

Mas interrompe quando aceita o convite irrecusável de Marcelo Caetano para deputado, no ano de 1969! A Ala Liberal foi uma pedra no charco no hemiciclo tumular, passando a lembrar os velhos tempos da I República, onde as ideias se defendiam à lambada e não poucas vezes os tinteiros e as cadeiras voavam pelos ares.

Mas a desilusão chega com a revisão constitucional a partir de 15 de Julho de 1971! «Catorze deputados da Ala Liberal, com Sá Carneiro à cabeça, apresentam um projecto-lei de revisão onde se consagravam a eleição do Presidente da República por sufrágio universal e um novo regime de liberdades», que chega a ser discutido na generalidade, mas um deputado ortodoxo requereu, durante o debate, que não fosse discutido na especialidade! Levanta–se um burburinho na Assembleia com Sá Carneiro e outros subscritores aos gritos e quase chegavam a vias de facto.

Sendo um severo crítico do autoritarismo, apostava numa democracia, segundo o modelo da Europa desenvolvida.

Francisco Sá Carneiro era de estatura baixa, mas Napoleão também não era alto e chegou a Imperador e a mexer com o mundo do seu tempo!

O historiador José Freire diz ser verdade que os homens não se medem aos palmos, mas que Sá Carneiro veio «provar também que os políticos se medem pelos palmos que são capazes de ver ou inventar à frente do nariz»!

Era o tempo de esperança da primavera política marcelista!

E foi ali que Sá Carneiro provou a sua coragem, o seu fôlego e o seu sentido de Estado. Passou a ser uma referência na comunicação social. E uma esperança para a oposição moderada.

E com a revisão constitucional metida na gaveta, morre a esperança da primavera política marcelista! E o regime volta a endurecer!

Cansado, desiludido e descrente da mudança pacífica, renuncia a 25 de Janeiro de 1973. Toma o primeiro comboio para o Porto e regressa ao escritório onde o espera uma advocacia de qualidade.

Estava no seu escritório de advogado no Porto quando toma conhecimento de que o movimento das forças armadas estava na rua. Abandona tudo e corre para o centro das operações para presenciar in loco o andamento dos acontecimentos marcantes do fim de uma ditadura que durara mais de quarenta anos! Era o 25 de Abril, tão esperado, que vinha para ficar.

Volta novamente, mas vai ser penosa a carreira política de Sá Carneiro como líder partidário. A transição sem balbúrdia e golpes não é possível. Assiste-se à lavagem do cérebro dos ingénuos militares de Abril, na sua maioria. E quem não adere à bagunça é apelidado de fascista, ou contra-revolucionário. Até Ramalho Eanes, o desejado pelo papel desempenhado no arrumar da casa no 25 de Novembro, vai falhar. É ele que mais tarde, já na qualidade de Presidente da República e do Conselho de Revolução, tenta e consegue bloquear, em certa medida, a acção do governo da AD – uma coligação eleitoral formada por Sá Carneiro, Freitas do Amaral e o arquitecto Ribeiro Teles, presidida por Sá Carneiro que apostava no relançamento da economia que estava pelas ruas da amargura com a balbúrdia que se arrastava já desde o 28 de Setembro de 1974 e agravada depois do 11 de Março de 1975! Coligação que ganhara as eleições intercalares em Dezembro de 1979.

Contudo, remando contra essa força de bloqueio, consegue o governo inverter a tendência dos indicadores económicos desfavoráveis desde o ano de 1974.

A oposição ata as mãos na cabeça. Sá Carneiro retira-lhe espaço de manobra. O FMI deixa de ser o credor agiota que põe condições para emprestar dinheiro! E o Prof. Freitas do Amaral chega a afirmar, ao sexto mês de governação, que Francisco Sá Carneiro se revelara um verdadeiro político com sentido de Estado. Ao que o primeiro-ministro responde que ainda é cedo para tirar essa conclusão.
Com Sá Carneiro a primeiro-ministro e o Prof. Cavaco Silva a ministro das Finanças e do Plano, o ano de 1980 vai ser o ano da prosperidade, fazendo lembrar o período de Péricles! E Portugal passa a ser um País considerado e respeitado em toda a Europa!

Sonha, então, o génio da política com uma Constituição plenamente democrática, expurgada do Conselho de Revolução e de referências ideológicas, aberrações impostas pelo pacto MFA/partidos que vai traçar o conteúdo e limites da nova Lei Fundamental – Constituição à imagem e semelhança dos desenfreados fervores revolucionários que se viviam naquela época conturbada!

Mas a 4 de Dezembro de 1980, quando o Outono começava já a despedir-se, e despontava uma noite fria, a televisão interrompe subitamente a programação para anunciar a tragédia de Camarate, ou seja a queda do Cessna que, segundos antes, havia levantado voo da Portela com destino ao aeroporto de Pedras Rubras, hoje aeroporto de Francisco de Sá Carneiro.

Só a Revisão constitucional de 1982 e 1989 tornou possível o sonho antes acalentado por esse príncipe da política. E só a partir daí se pode afirmar que a Constituição é democrática, plenamente democrática.




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