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«Canela nas farturas»

Não passou de anedota, mas transportava em si uma certa moral. Quem a inventou sabia que há políticas e políticas, remédios e remédios, formas diferentes – até contraditórias – de governar…

N/D
12 Dez 2003

Dizia a anedota que Salazar, já no reino dos eleitos, vendo como o seu sucessor – Marcelo Caetano – distendia os cintos dos portugueses com novas facilidades e abertura, andava e cirandava pelos jardins celestiais fazendo gestos uniformes, com os dedos – polegar e indicador – da mão direita, desenhando pequenos círculos. Ao ser observado por São Pedro nessa sua atitude estranha, o Santo lhe perguntara: – «que andas tu a fazer, Salazar?!» Resposta pronta do grande Estadista: – «Ando a deitar canela nas farturas do Marcelo»…

Engraçado, não te parece, amigo leitor!? Sobretudo para quem sentiu na vida as tímidas mas benéficas aberturas marcelistas… As “farturas” de que, ironicamente, falava o Professor Salazar não eram as farturas das romarias, tão apreciadas por muita gente… Eram outras farturas, até então desconhecidas…

Este episódio inventado – mas com certa razão de ser naquele tempo – talvez já haja tido novas aplicações no “pós Abril” dos últimos tempos. Portugal – ninguém o nega – sofre, desde os dois últimos anos, de uma doença grave que teve como causa principal grandes e recheadas travessas de “farturas”, distribuídas com abundância e irresponsabilidade política de quem ia ao leme da (in)governação… Tudo eram facilidades, incitamentos ao consumo, ofertas capciosas de vantagens, propaganda desenfreada do recurso ao crédito, etc. etc. O resultado foi o que se viu: saltos do “barco” como rãs que fogem ao perigo; buracos e mais buracos no “casco”; um “salve-se quem puder” que a “nau vai ao fundo” ou ficará porventura imobilizada num “pântano”…

Sabemos hoje por experiência como tem sido difícil a Portugal recuperar de “farturas” envenenadas…

É que nem sempre gastar é investir nem é boa administração imitar cigarras e desprezar formigas…

Há muitos portugueses e empresas endividadas, porque pensaram mais em outonos do que em primaveras… Quem gasta sem fazer balanços nem orçamentos adormece arriscadamente sobre abismos… Saber conter-se, abnegar-se, renunciar a contos de sereia, não ir além do razoável, é ser economista mesmo sem escola…

Cuidado, no Natal, com o exagero de “farturas”, não vão os credores deitar “canela”.




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