Fotografia:
“O Murmúrio da Fonte”

Olha! Olha! Ouve… Escuta… É uma fonte! Apontava eu para lá com o dedo bem esticado. Saltei por cima de um matagal, que a espaços a encobria e aproximei-me dela. Cá está, gracejei a arder em contentamento. O calor apertava. E a minha vontade de beber crescia… crescia, desesperadamente.

N/D
11 Dez 2003

Aqui a parturiente, por onde corria o veio de água, que bucólico! – era uma fenda a rasgar horizontalmente a rocha granítica, quase toda ela coberta de silvedos picosos e cristalina e fresca, sempre em renovos, com bordados de murmúrios tecidos pelos lábios ásperos da fenda.
Que rica fontinha! exclamei. Nem mais, nem menos! Vem mesmo a calhar! Era precisamente isto que eu, agora, procurava para matar minha cruel sede.

– Sabes de quem te abeiras? Perguntou-me ela.

– Então não sei?! Respondi-lhe. E a resposta estava mesma na ponta da língua, quando ela ma travou e disse:

– Eu sou a que sou. E só sou a que sou naquilo como sou.

Estou bem servido! disse eu cá com os meus botões. Isto cá para nós, que ninguém nos ouve, nunca fui muito ou nada com charadas. Pois bem, explicita-se e disparei–lhe na cara:

– Que és uma fonte, disto não duvido.

– Abre-te a mim, diz a fonte, e inclina para os meus lábios o copo do teu ouvido, pois vou verter nele estas palavras: sou branda e impetuosa. Minhas diferenças estão em mim, como eu estou em minhas diferenças. Mas olha! Sou mais que as minhas diferenças. Porque eu sou, como convém, a fonte de minhas oposições, de meus contrastes e de meus contrários. Eu, fonte, venho de minha nascente. No fundo, bem mesmo no fundo, sou verdadeiramente a minha nascente. Eu sou a bica que murmura. Eu sou o lençol de água cristalina e fresca. E pela estrada da noite, a lua vem beijar-me e o luar complacente penetra no lençol de meu leito. Crepita aqui, aqui a nossos pés, a paz, a harmonia e a concórdia. Eu sou o ribeiro que corre aqui. Eu sou, ali, o rio: Eu sou, além, o oceano. Eu sou a nuvem. Eu sou a nuvem que se rompe e faz verdejar os campos. Sou a nuvem que enche de petulância os rios e embriaga de alegria as cantantes fontes. Sou a nuvem livre que dá vida e força à minha nascente.

Todos somos um todo, mas um todo regido pelo sentido do bem, da verdade e da bondade. Estamos todos unidos, congregamo-nos, harmonizamo-nos, cooperamos. E em nossas livres liberdades, somos para vós, para vós os humanos, um bem. Despoletamos, pois, em vosso interior, a alegria, o contentamento, a vossa segurança e a vossa esperança. Mas, por amor de Deus! na posse dele, não punhais o obstáculo da inveja, da discórdia, da violência… que vos ensopa em lágrimas, em sangue, em dor.

Sob o olhar perspicaz e atento de minha consciência, ordeno às minhas diferenças, aos meus contrários, às minhas oposições, o respeito que devem às rédeas do controlo que pondera a proporção, a medida e a harmonia; o respeito à incómoda superação que as liberta dos malefícios; o respeito pelo conflito da escolha que acerta; o respeito pela lucidez da gestão que persegue as minhas mestres do bem, da verdade e da bondade. Pois é só agora que sou a autêntica fonte. Estou entre aquilo que me deleita, entre a minha nascente e o meu Oceano.

Falei-te disto, porque entre mim e ti, entre nós e vós, há um laço de parentesco que respeito e nos une. E vós, humanos, além deste, possuis um outro verdadeiro laço de parentesco, que me dizem estar em vossa racionalidade, com Deus. Que fazeis vós, então?

Ainda me recordo, como se fosse hoje, quando eu, nuvem nómada, prodigamente me rasguei por sobre os montes e os vales. E eis que estalaram, então, as nascentes de água. Gargarejaram as fontes. Verdejaram as hortas e, nos campos, as verdes e macias ervas. Robusteceram os frutos em seus pomares. Pastavam, pachorrentamente, os bois. Intumesciam de leite os úberes das vacas.

Saltavam pelos valados as cabras e dois bodes, dois bons latagões, de chifres retorcidos e rijos, marravam um contra o outro, disputando a fêmea. Cantavam ao desafio os galos. Brincavam, por entre a folhagem, os pardais traquinas. Zumbiam as asas das obreiras abelhas por cima das flores de jasmim e das pereiras floridas… E Vergílio, o poeta latino, sentado acolá, com a cabeça embriagada por tanta beleza e suspenso nas asas da contemplação, batia leve, levemente à porta do Transcendente. E fui eu, com a minha prodigalidade em chuvas, e disto me glorio, quem o incentivou.

E vós, humanos, que fazeis?! Eu sou, como te disse, o murmúrio.

Calei-me. Meneei a cabeça e os ombros e vim-me embora.




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