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A Cidade das Paixões

A fronteira entre ficção e realidade pode ser longínqua ou vizinha e um dos desafios mais perigosos da modernidade humana é, por vezes, estabelecer essa fronteira tão óbvia para uns e jamais achada por outros. Pois aquilo que lhe proponho neste texto é uma viagem por um mundo… para uns da fantasia… para outros da realidade.

N/D
9 Dez 2003

Na minha viagem vamos explorar os detalhes de uma urbe do séc. XXI, cujas características evidenciam a sua paragem no tempo, pelo menos no que toca a um dos mais antigos elementos existentes na história na humanidade: o poder. Chamemos-lhe Cidade das Paixões.
Na Cidade das Paixões o poder é velho, gasto e viciado. Está acorrentado às mesmas mãos há mais de um quarto de século e pura e simplesmente já não tem nada de novo para dar. O seu detentor mexe in-fluências, manda e desmanda, está constantemente enublado por negócios e por obscuridades da vida económica, social, política e religiosa. Vive num palácio rodeado de luxo e bem-estar, desloca-se num elegante e despendioso automóvel que diz não lhe pertencer e tem uma grande paixão… o futebol.

Não anda sozinho! Tem um grupo restrito de pessoas que privam consigo de uma forma mais directa. Nesse grupo estão representadas as classes mais importantes da vida da urbe: a política, a religião, as empreitadas e, como não podia deixar de ser, o poder económico.

Tem um guarda permanente que, ao mínimo sinal de ataque ao seu dono, risca e sarrabisca para que nada de mal lhe aconteça. Aqui está personificada a imagem do poder instalado que tem ao seu serviço armas poderosíssimas como a arte das letras sob a forma de imprensa escrita, sob o comando do súbdito mais fiel do seu império… aquele que quando ouve “ataca”, não hesitando em fazê-lo sem sequer se questionar sobre a razão daquela ordem.

Tudo o que envolva grandes quantidades de dinheiro tem que passar pelas suas mãos, porque o seu poder vai até às mais profundas entranhas da sociedade.

Gosta de construir muito, sem regra, sem medida e sem ordem, como se de legos se tratasse. E neste campo pratica as maio-res extravagâncias, de todos os tipos e feitios, de todas as cores possíveis e imaginárias, de todos os tamanhos… à sorte… sem pensar na qualidade de vida dos seus cidadãos. Rasga avenidas de circulação rodoviária bem no meio das suas construções às quais tem o desplante de chamar zonas residenciais, como se fossem dignas de serem habitadas. Nessas avenidas morrem pessoas… mas o seu sono parece ser sempre tranquilo. Promete não parar, até porque tem de “alimentar” a fúria económica daqueles que o rodeiam, que lhe emprestam carros, que lhe constroem palácios… enfim dos tais poderes fundamentais do seu círculo de influências.

Este é o poder existente na Cidade das Paixões, frio, egoísta, rodeado de servos e comprometido com os piores elementos da sociedade moderna.

Chamam-lhe Cidade das Paixões, porque o seu destino é sempre refém das paixões do homem que detém o poder…

Esta é a ficção de uns e a realidade de outros que olham incrédulos para aquilo que acontece todos os dias e que muitos não querem ver.

Encontrar a fronteira entre ficção e realidade numa situação como esta é mais do que um exercício mental ou filosófico… é uma questão de responsabilidade cívica…




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