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Uma aliança contra a fome

Durante alguns anos recentes, diversos altos funcionários da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, mantiveram a expectativa de uma resolução do problema da fome no mundo num prazo relativamente curto. Havia meios e a vontade certamente não faltaria. Agora, o pessimismo voltou. Há os meios, mas não há a vontade.

N/D
7 Dez 2003

Durante a sua trigésima-segunda conferência, que decorre em Roma, a FAO denunciou o agravamento da situação. João Paulo II, que anteontem recebeu os participantes na iniciativa, pediu ao mundo para ouvir o grito dos esfomeados. O Papa defendeu que a existência de uma “aliança internacional contra a fome” preconizada pela FAO se concretize o mais rapidamente possível.
Meses antes, na intervenção proferida durante a cerimónia da Via Sacra, no passado dia 18 de Abril, João Paulo II afirmava: “Milhares de adultos e crianças inocentes morrem de fome e de inanição; quantos irmãos e irmãs nossos estão revivendo na própria carne o drama do calvário! Podemos ficar indiferentes diante deste desesperado grito de dor que se eleva de tantas partes do planeta?”. A resposta política parece ser sim.

No encontro da passada sexta-feira com a gente da FAO, o Papa lembrou que “atendendo à relação estreita entre a fome e a paz, as decisões e os programas político-económicos devem ser cada vez mais marcados por um empenho pela solidariedade global e pelo respeito pelos direitos fundamentais do homem e designadamente o direito a uma alimentação equilibrada. A dignidade humana está ameaçada quando o pragmatismo, separado das exigências morais, conduz a decisões favoráveis a alguns privilegiados, ignorando o sofrimento sentido por vastos sectores da família humana”.

Jean Ziegler, relator especial do programa da ONU contra a fome, faz um retrato dramático do problema: “Todos os dias, aproximadamente 100.000 pessoas morrem de fome ou de suas consequências ime-diatas em todo o mundo; 826 milhões de homens, mulheres e crianças estão permanente e gravemente desnutridos, ficando cegos por falta de vitamina A. As crianças têm o cérebro atrofiado. Em suma, a desnutrição leva à invalidez. Se uma criança até aos 5 anos de idade for mal alimentada, ficará mutilada para o resto da vida.

Como diz Régis Debray: ‘A criança é o crucificado de nascença’. E essa maldição é reproduzida de geração em geração: cada ano, ela dizima milhares de mães gravemente desnutridas que dão à luz milhares de crianças mutiladas pela falta de nutrição”. A verdade é que tudo isto acontece num planeta em que abundam as riquezas e há todos os meios para erradicar a fome. “O Relatório Mundial da Fome, feito pela FAO, indica que a Terra, no seu actual estado de desenvolvimento agrícola, poderia nutrir, sem nenhum problema, 12 biliões de seres humanos. Nutrir sem problema quer dizer: oferecer 2.700 calorias por dia a cada pessoa. Ora, actualmente, somos pouco mais de 6 biliões de pessoas na Terra… e um sexto da população é destruído pela fome e desnutrição!”.

Para Jean Ziegler, “a causa principal deste disparate é a distribuição desigual das riquezas do planeta. Em 1960, 20 por cento dos mais ricos do planeta dispunham de um rendimento 31 vezes superior aos 20 por cento da população mais pobre. Em 1998, o rendimento dos 20 por cento mais ricos era 83 vezes superior à dos 20 por cento mais pobres. Em setenta países, o rendimento médio é menor do que há 20 anos. Actualmente, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), mais de 2 milhões de seres humanos vivem na miséria absoluta, sem uma residência adequada, sem um salário mínimo, sem um trabalho regular, sem assistência médica, sem nutrição suficiente”.

A África, como desde há muito se sabe, é o continente que requer uma intervenção mais urgente. Dizem os números que mais de quatro dezenas de milhões de pessoas estão à beira da morte por subnutrição. Esta catástrofe é provocada por diversos factores tais como, designadamente, as desordens de origem climática, sobretudo as secas mas também as inundações, e as desordens de origem humana, sobretudo a corrupção dos governos locais e as guerras. À calamidade da fome, como também esta semana se pode constatar através dos números divulgados pelos meios de comunicação social, soma-se ainda a desgraça da epidemia da SIDA.

A África não é o único continente que figura no mapa da fome crónica desenhado pelo Programa Alimentar Mundial (WFP). Este abrange a quase totalidade do planeta, ficando de fora apenas a maior parte da Europa e os Estados Unidos da América.

Num documento de 1996, bastante actual, intitulado “A fome no mundo, um desafio para todos: o desenvolvimento solidário” (http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/corunum/documents/rc_pc_corunum_doc_04101996_world-hunger_po.html), o Vaticano, recordando que “os princípios emanados pouco a pouco pela Igreja, no seu ensinamento social, constituem um guia precioso para a acção dos homens contra a fome”, sustentava que “a busca do bem comum é o ponto de convergência em que se concentram: a busca da maior eficácia na gestão dos bens terrestres; um maior respeito pela justiça social consentida pela repartição universal dos bens; uma prática competente e permanente da subsidiariedade – que protege os responsáveis contra a apropriação do seu próprio poder (que, na realidade, é um poder de servir); o exercício da solidariedade, que impede a apropriação dos meios financeiros por parte dos ricos, e que há-de permitir a cada homem não ser excluído do corpo social e económico, nem privado da sua dignidade fundamental”. Como há dias observava o director-geral da FAO, o problema da fome não decorre da falta de alimentos. Ele decorre da falta de vontade política.




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