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Todos temos algo para dar

Quando se fala em dar, muitos pensam logo no seu «dinheirinho» e daí a escusa – não me fale nisso, nestes tempos de crise… Dar, porém, não é só dinheiro. Vejamos algumas histórias que nos mostram que o dar é muito mais vasto.

N/D
6 Dez 2003

André Maurois na biografia de Disrael, primeiro ministro inglês, conta o seguinte caso: Disrael, ao fim de muitas dificuldades conseguiu uma cadeira na Câmara dos Comuns. No dia em que devia pronunciar o seu primeiro discurso no Parlamento, a esposa acompanhou-o até à entrada. Disrael saiu do carro, despediu-se da mulher que lhe sorriu afectuosamente, para lhe dar ânimo. Mal o marido se afastou, caiu desmaiada, pois que ao fechar a porta de carro ela ficou com os dedos esmagados. Com a dor fortíssima que suportou não gritou, pois sabia que o marido precisava de serenidade naquela altura para pronunciar o seu discurso – a esposa deu o que tinha e podia naquele momento: um sorriso heróico.
Um homem com aparência de boa situação económica, mas cego, esperava há muito no passeio por alguém que o ajudasse a atravessar a rua; não pedia, limitava-se a esperar. Alguém atento, ajudou-o e no fim o cego desabafou, chorando: “Pior que a minha cegueira, é a solidão em que vivo – a sua atenção fez um pouco de luz na minha escuridão”. Aquele homem que ajudou o cego deu o que tinha – o esquecimento de si mesmo (não passou a correr para apanhar o autocarro), para pensar no outro que necessitava dele.

Na família só havia um carro que era usado pelo pai e pelos filhos. Estes, com a leviandade dos anos estavam constantemente a causar estragos no carro. Quando isso acontecia o pai ralhava com força. Um dia tocou ao pai amolgar o carro. Como encarar os filhos? Ao chegar a casa, depois de contar o sucedido, o que ouviu deixou–o admirado. Os filhos em unanimidade disseram: “Não se preocupe, pai, nós conhecemos uma oficina que trabalha bem e barato”. Os filhos, naquele momento deram o que tinham: compreensão pelas limitações do pai, esquecendo as reprimendas que já tinham levado pelo mesmo motivo e que tanto os humilhavam.

Uma rapariguinha de doze anos carregava às costas uma criança. Alguém lhe perguntou: “Pesa muito, não é verdade”? A menina com toda a simplicidade respondeu: – “Não, é meu irmão”. Aquela menina tão novinha deu o que tinha: a desvalorização do seu esforço por amor fraterno.

O frio corta naquela noite. Dois homens entraram numa barraca onde só não faltava a Fé e com ela a alegria. Deram um envelope com dinheiro ao chefe de família e guloseimas às crianças. À saída um deles, já na rua, despiu o sobretudo que o agasalhava e sem ninguém ver atirou-o para dentro da barraca. Virando-se para o companheiro disse: “Vamos embora depressa antes que percebam”, e acrescentou: “O frio é de matar, mas nunca tive o coração tão quente!” Este homem já tinha dado dinheiro e guloseimas, talvez sem sacrifício, mas excedeu-se – deu, com generosidade e sem espectáculo, algo que naquele momento lhe fazia muita falta.

Realizava-se a volta à Itália em bicicleta. Um ciclista começou a dar na vista pelo seu pedalar vigoroso e determinado. Ganhou e com a vitória bastante dinheiro. Os entrevistadores queriam saber o segredo de tal força demonstrada. O ciclista confessou o seu segredo: “Quando estava no limite das minhas forças, pareceu-me ver numa pedra o rosto da minha mãe que precisava do dinheiro do prémio para pagar os estudos dos meus irmãos mais novos. Foi este o meu doping”. Aquele corredor ao pensar nos irmãos deu mais do que podia humanamente – o amor fraterno multiplicou-lhe as forças.

Eram dois meninos das favelas, um de cinco e outro de dez anos. Ao fim de muito pedir o mais velho consegue, de esmola um jarro de leite. Vira-se para o irmão e diz: “Eu bebo primeiro e depois bebes tu” – levou o jarro à boca, fingiu que bebia e passou-o ao irmão pequeno que sofregamente tomou um grande gole. A cena continuou até se acabar o leite. O mais pequeno não deu por nada tão consolado que ficou com o petisco; o mais velho … esse ainda ficou mais consolado – enganou a sua fome com a alegria de ter dado generosamente tudo o que tinha.

Nota: Estas histórias foram recolhidas e adaptadas do livro Egoísmo e Amor de Rafael Llano Cifuentes.




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