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Ao Deus do Futebol

Antigamente prestava-se culto ao Imperador. O Imperador Romano tinha as grandes arenas, onde ele e o seu povo, se deleitavam com o desporto entre os cristãos e as feras. Triste cenário histórico, este masoquismo colectivo.

N/D
6 Dez 2003

Denunciámos, várias vezes, que os regimes comunistas tinham transformado o desporto na religião popular. Os troféus que internacionalmente eram atribuídos aos atletas desses países, deram para concluir que o desporto estava sempre na mó de cima.
Lembramo-nos da história dos “três efs” (futebol, fado e Fátima) que no tempo de Salazar preenchiam os espaços livres e não livres do povo, quase que em alienação amortecimento colectivo.

Recordo-me que um dia em entrevista televisiva me insurgi contra a construção duma grande catedral, com o gasto de muitos milhões de contos, no recinto do santuário de Fátima. Dizia eu que enquanto houvesse aldeias sem água potável e luz, escolas sem condições de aprendizagem, estradas depauperadas e gentes sem as condições mínimas de alimentação, era injusto e ofensivo, andarmos a planear catedrais com custos exorbitantes e feitas com a oferta do pobres.

Continuamos a defender que Deus não precisa de templos feitos por mãos humanas para ser adorado e não é já aqui nem em Jerusalém que importa adorar, mas em todo o lugar o cristão o poderá fazer, com tanto que o faça em “espírito e em verdade.”

Por outro lado, a história nos ensina que à religião estiveram sempre ligadas as Igrejas e também as grandes catedrais (muitas delas construídas, sabe Deus como!).

Motivado pelo Euro 2004, o futebol resolveu construir já não um estádio nacional, mas para cima de uma dezena, onde milhões e milhões de euros foram e estão a ser investidos, com o prejuízo de muitas outras obras bem mais necessárias e urgentes para a dignificação e humanização da nossa política interna.

Agora a imprensa chama-lhes “catedral da Luz”, “basílica das Antas” ou mesmo “Vaticano”. As grandes reportagens televisivas que são realizadas por altura das inaugurações, dão ao acto um cunho verdadeiramente nacional. Nem o Papa, aquando das suas visitas ao nosso País, terá tido uma cobertura televisiva assim.

Os Bispos portugueses acabam de emitir uma Nota Pastoral cujo tema de fundo incide sobre o “desporto ao serviço das construção da pessoa e do encontro dos povos”. Ali condenam também “a comercialização do futebol, os discursos agressivos e a violência em torno do futebol”. Apelam para que a prática do desporto “pode e deve favorecer uma contribuição válida para a construção de um mundo sem fracturas e sem fronteiras”.

A Nota Pastoral dirige-se também aos atletas, aos dirigentes, aos jornalistas e aos adeptos num apelo final. Que todos façam do desporto “um divertimento sadio, uma forma de lazer, uma expressão de arte e de beleza, uma festa de encontro e de união que não seja um factor de conflito ou de divisão nas famílias ou um obstáculo para o encontro, a partilha e a solidariedade familiar; que o futebol não seja um factor de alienação, que faça esquecer as responsabilidades que cada um tem para com Deus e para com os outros”.

Seria bom que eu me enganasse ao escolher o título para esta reflexão: “Ao Deus do futebol”. Mas a verdade manda-nos dizer que se enterraram milhões e milhões de euros nestas construções que são um hino ao futebol, mas que são roubados à boca e à dignidade humana de muitos portugueses, temendo que estes templos humanos, absolutizem, pouco a pouco, o relativo da arte, da técnica e do desporto.




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