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Explicação do Dragão

O Futebol em geral, que nas últimas décadas se vem degradando pelos caminhos da Comercializaçãoe da Violência, desce agora o degrau da Infantilização e da “harry-potterização”

N/D
2 Dez 2003

1- O “Coraçom” e o “Dragom”. Há-de haver uma explicação, nem que seja do foro psiquiátrico, para que os dirigentes de um clube altamente bem sucedido como o FC Porto (gloriosíssimo vencedor de duas taças europeias e de uma Taça Internacional) escolham para seu símbolo (e como se tal não bastasse, também para nome do seu novo estádio) um horripilante e inestético réptil mitológico.

Ainda por cima esverdeado, escamoso e com hálito de peçonhentas labaredas.

Os dois outros “grandes”, Sporting e Benfica, estão, neste campo, de longe mais bem servidos. O Sporting identifica-se com o régio e fulvo leão. E o Benfica com a também heráldica águia, dona dos céus. O Porto chegou tarde a este “leilão” zoológico desportivo. E foi só nos anos 80-90 que, ao examinarem bem o seu emblema, as hostes portucalenses descobriram o pretenso “ovo de Colombo”… É que o emblema do clube inclui em si o emblema da cidade. E neste, ao alto, alguém no passado se lembrou de, sabe-se lá porquê, pintar um dragão. Ora o que há de mais parecido à face da Terra com um dragão é o crocodilo, esse grande réptil, feio, cruel e traiçoeiro. Ou então as venenosas cobras, ou os feíssimos (e ainda bem que extintos) dinossáurios, que infernizaram o Cretácico.

Para mais a palavra “dragão” provém dum étimo grego que queria mesmo dizer “serpente”. E além disso, simboliza vagamente o Diabo! E lá está ele, em cima de tudo, no emblema da liberal metrópole e também no da alviciânea agremiação desportiva baixo-duriense. Ora isto dos símbolos tem sempre muito que se lhe diga. Os símbolos são tudo, ou quase tudo. Um emblema que coloca um elemento associado ao Maligno por cima de outros símbolos, esses sim positivos (com a Virgem Maria ou a Coroa Real ou as Cinco Quinas) é um emblema que está objectivamente mal feito; e que deve ser corrigido ou substituído. O lugar do dragão (a “Coca” da tradição moncanense e porto aos pés de S. Jorge a cavalo.

Quem colocou o Dragão em cima de tudo o resto no emblema do burgo duriense? Provavelmente foi aquela importante facção da poderosa classe mercantil da cidade, que sempre se distânciou de Maria, da Coroa e da poderosa simbologia dos 5 Castelos. Facção essa que subiu de vez ao Poder com D. Pedro IV, o “rei liberal”. Aliás, se repararem bem, o célebre coração que este rei doou à cidade que por ele tão bem lutou, encontra-se no verdadeiro centro do mesmo emblema…

O dragão é também o símbolo malfazejo da proa e das velas dos célebres barcos víquingues, os “drakkars”; e da antigamente (hoje não) tão rebelde região britânica de Gales. Na China, o dragão não terá talvez essa conotação negativa, mas isto aqui ainda não é a China (apesar da sempre simpática presença de tantos elementos recém-chegados, representantes da sua esforçada classe comercial).

2 – E agora também… o “estádio do dragão”. “Quem faz um cesto, faz um cento”. Como se não bastasse o gosto “duvidoso” que presidiu à escolha (bem recente, afinal) do tótem clubístico, o Porto vai também baptizar o seu estádio com aquele nome infantil e fantasista. Como se já não bastassem também as tão inestéticas alterações do belo equipamento do FCP, concebido há mais de 60 anos…

O Futebol em geral, que nas últimas décadas se vem degradando pelos caminhos da Comercialização e da Violência, desce agora o degrau da Infantilização e da “harry-potterização”. Recordem-se a propósito as recentes reflexões da Conferência Episcopal e o “design” de alguns (não todos) dos caríssimos novos estádios, construídos em vez das necessárias prisões e hospitais. Especialmente o ridículo estádio de Aveiro, que mais parece um “lego” gigante ou uma nova Disneylândia.

Pessoalmente, não acredito que este nome infantil e diabólico do “dragão” vingue. Não repugnaria por isso que o estádio se chamasse mesmo “Pinto da Costa”. Eu proporia, sem qualquer dúvida, contudo, o nome de “José Maria Pedroto”. É que ele foi o homem que, numa época muito difícil, com Lisboa a tentar abafar o Norte, conseguiu tirar o FC do Porto do fundo do poço, fazer dele campeão e criar as estruturas de todos os seus futuros triunfos.

E já agora, viva o verdadeiro Futebol Clube do Porto: o das duas barras verticais azuis-claras na camisola branca, do calção azul e das meias imaculadamente brancas e sem riscas. E com os números nas costas, a vermelho, também.




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