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A crise no seio da igreja anglicana

Não é de agora a crise profunda da Igreja Anglicana, iniciada com a política eclesiástica do rei inglês Henrique VIII, que levou ao cadafalso, entre outros católicos que se recusaram a segui-lo, o bispo S. João Fisher e o leigo, seu ex-primeiro ministro, S. Tomás Moro.

N/D
2 Dez 2003

A política expansionista e colonial da coroa britânica levou a mais protegida confissão religiosa do Reino Unido – o anglicanismo – aos muitos territórios do vasto império que construiu ao longo dos séculos, sem que, no entanto, os católicos irlandeses (submetidos ao poder de Londres durante várias centenas de anos) e também ingleses deixassem de levar a sua fé para os mesmos lugares, apesar das dificuldades que lhes eram levantadas.
Sendo o autor destas linhas sacerdote católico, não pode regozijar-se com o estado de desunião e de dificuldades que atravessa esta confissão, que alberga no seu seio muitos milhões de fiéis, tanto mais que ele representa, como acentuou João Paulo II, um entrave forte para o ecumenismo, tão incentivado pelo actual Romano Pontífice com passos corajosos e concretos. No entanto, não deve deixar de se reflectir sobre o que se está a passar entre eles e pensar, com agradecimento, no que observava recentemente um bispo anglicano, ao concluir que na sua igreja não havia um papa que dissesse a última palavra sobre as discórdias de actuação ética e de concepção doutrinal dos fiéis e das autoridades eclesiásticas. E isto apesar dos sintomas de pouca unidade e de falta de formação doutrinal que se verifica entre alguns católicos na actualidade.

Quando, há alguns anos atrás, o começo da ordenação de mulheres se efectivou nesta igreja, abriu-se uma crise profunda entre os vários sectores do anglicanismo. E verificou-se, imediatamente, a saída de fiéis para o catolicismo. Há pouco, os epis-copalianos – digamos assim, ramo anglicano dos Estados Unidos – consentiram na ordenação de um bispo, homossexual confesso e assumido, de seu nome Gene Robinson, bispo de New Hampshire. Pouco depois, aprovaram a resolução de reconhecer a união entre homossexuais e admitir que os seus pastores as abençoem. De notar que esta confissão religiosa, nos USA, desceu de 3,6 milhões de fiéis em 1966 para 2,3 milhões na actualidade, o que supõe uma diminuição duramente considerável em pouco menos de quarenta anos.

Muitas reacções de tristeza e tentativas de apaziguamento vieram a seguir a este acto. Certamente que para o diálogo ecuménico com o catolicismo uma medida destas representa um entrave forte, con-soante explicava o cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho para a Unidade dos Cristãos, lembrando que o problema não dizia respeito apenas às dissensões entre anglicanos, mas também ao diálogo com o catolicismo, que sempre manteve uma posição clara sobre este tema, como, aliás, o Catecismo da Igreja Católica não fez mais do que realçar.

Roan Williams, actual arcebispo de Canterbury, tradicionalmente a figura ecelsiástica mais emblemática do anglicanismo, lamentava-se: “(…) as actuais controvérsias sobre a sexualidade são só uma amostra de um grupo de temas onde se estendem as gretas”, nesta forma de religiosade cristã. E Lim Cheng Ean, representante desta Igreja no Oeste da Malásia, confessou que terá de ponderar “se vai continuar com os laços que o uniam à igreja episcopaliana dos Estados Unidos”.

Parece, assim, que a confissão anglicana se mostra em grandes dificuldades para manter um mínimo de substracto comum, quer doutrinal, quer sob o ponto de vista da actuação moral. A descida do seu número de fiéis é notável, nomeadamente no Reino Unido, onde, de acordo com vozes mais críticas, a Igreja Anglicana perdeu, entre 1930 e 1980 metade dos seus fiéis. E o declive continua, já que dados recentes revelam que entre 1994 e 1997 o abandono é de cerca de 54.000 fiéis por ano. Isto para não falar já do envelhecimento cada vez maior do clero (nos últimos 20 anos o total de sacerdotes retirados e das suas viúvas aumentou 25%) e da diminuição do número de vocações sacerdotais, mau grado a ordenação de mulheres e de os clérigos poderem aceder livremente ao matrimónio. Um dado curioso – fornecido por Stephen Keeble, vigário anglicano de São Jorge, em Headstone (Harrow) -, afirma que a ordenação de mulheres, iniciada em 1994, não só não resolveu o problema das vocações sacerdotais, mas esteve na origem da perda de cerca de seiscentos sacerdotes e muito mais leigos. Enfim, curiosamente, se baixou o número do clero dedicado à actividade pastoral, a Igreja Anglicana conta hoje, no Reino Unido, com o dobro dos dignatários eclesiásticos em relação aos anos em que tinha também o dobro dos fiéis.




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