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O desemprego e seu enquadramento

O desemprego crescente que se tem vindo a verificar nos últimos meses deve preocupar todos nós. Mas mais importante que constatar os números é preciso perceber as causas e o que pode ser feito para as atenuar.

N/D
26 Nov 2003

O problema da subida da taxa de desemprego não pode, necessariamente, ser abordado como um todo – se por um lado temos uma ‘fatia’, quase permanente e comum a qualquer outro país, que podemos designar por desemprego estrutural, em que se incluem grupos de difícil inserção social e profissional, por outro lado temos uma outra ‘fatia’ relativa ao desemprego conjuntural, ou seja fruto de uma determinada conjuntura, como a que temos vindo a atravessar, de desaceleração económica tornando muito vulnerável o mercado de trabalho. Mas esta desaceleração económica não explica tudo, nem a maior parte do desemprego, já que a esta situação transnacional há que associar a “cultura empresarial” portuguesa e adicionar a polémica, mas real, baixa produtividade que, segundo dados do Eurostat, é menos de metade da média europeia!
Certo é que a produtividade não se pode dissociar da dita “cultura empresarial” nacional e o problema tem que ser desmistificado de uma vez por todas. As causas são claras e estão no diagnóstico que a consultora McKinsey Global Institute entregou ao Governo há poucos dias – se, de facto, há responsabilidades imputáveis aos trabalhadores quer por alguns (maus) hábitos de trabalho quer pelo seu baixo grau de instrução e cultura, tal não tem muito peso na vergonhosa produtividade nacional! A “batota” – essa sim, a fuga ao fisco, à segurança social, a economia paralela e outros desrespeitos por obrigações legais de vária ordem – está por trás deste flagelo e representa um terço no “bolo” de todas as causas para a baixa produtividade! Claro que nesse diagnóstico a burocracia e o mau funcionamento dos serviços públicos (a precisar de uma reforma “de cima a baixo”) também lá estão e com um peso acima dos 20% – aqui entra a ‘Reforma da Administração Pública’ para ganharmos a competitividade necessária, a reforma mais consensual de todas, a tal que a Senhora Ministra das Finanças disse (recentemente, e em Braga) ser preciso “produzir o mesmo com menos ou produzir mais com os mesmos”.

Se por um lado o Governo atacou o problema na vertente da protecção social e aumentou os incentivos à criação de postos de trabalho através do designado ‘Programa de Emprego e Protecção Social’ acelerando processos e potenciando alguns aspectos do subsídio de desemprego, falta sem dúvida atacar com determinação o outro lado da questão – a fraude generalizada!

Acredito, sinceramente, que o cerco que já começou a apertar, entrará numa fase decisiva no próximo ano, com o cruzamento de dados em várias vertentes, atacando de vez a “batota” que prolifera no meio empresarial e nos profissionais liberais, numa conjuntura em que é sempre penalizada a classe média e o trabalhador por conta de outrem, numa estratégia que pode, no imediato, fazer crescer o desemprego, mas que – estou certo – a médio prazo trará bons e duradouros resultados para o país.




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