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763. Meu caro Zé:

1. A estrada é um enorme verme de asfalto, estirado ao sol da tarde e a perder de vista. Calhordas carrega no acelerador, prego ao fundo, numa vertigem louca 100, 120, 150 km/h! – Eh! pá, esta merda até voa! E a mulher – Calma, homem! Deixa-te de tolérias! E o puto mais velho: – […]

N/D
26 Nov 2003

1. A estrada é um enorme verme de asfalto, estirado ao sol da tarde e a perder de vista. Calhordas carrega no acelerador, prego ao fundo, numa vertigem louca 100, 120, 150 km/h!
– Eh! pá, esta merda até voa!

E a mulher
– Calma, homem! Deixa-te de tolérias!

E o puto mais velho:
– Boa, pai, grande máquina!

Cruzam-se carros a ronronar, arfantes. Calhordas incha e prego mais ao fundo ainda! 180, 200, 220 km/h!

– Ninguém nos passa, puto!

– Boa, pai! Somos os maiores!

– Calma, homem! Tem juízo!

E uma curva mais apertada, a redução difícil, a travagem violenta, a saída de mão, um ligeiro em sentido contrário e o embate frontal!

Balanço da tragédia: quatro mortos e dois feridos graves!

2. O mal deste país, meu velho, é sermos uma cambada de Calhordas! Sem cultura. Mormente, sem cultura cívica. Cultura cívica que, pelo menos, é sinónimo de tolerância, solidariedade, generosidade e respeito pelos outros!

E o exemplo do Calhordas abunda por aí!

É Calhordas o empresário que declara falência fraudulenta da empresa, faz despedimentos sem justa causa, desbarata subsídios e lucros e explora mão-de-obra infantil, como Calhordas é o contribuinte que não cumpre os seus deveres fiscais e pratica a fraude e evasão;

É Calhordas o autarca que promove a corrupção, compadrio e clientelismo e atenta contra a qualidade de vida e o ambiente, como Calhordas é o funcionário público absentista, calaceiro e retardatário;

É Calhordas o trabalhador por conta de outrem que faz greve selvagem, é refractário ao trabalho e pratica a baixa por doença fraudulenta, como Calhordas é o comerciante para quem o metro tem oitenta centímetros e o quilo oitocentos gramas e vende gato por lebre;

É Calhordas o governante, ou gestor público que sacrifica o povo em prol de uma ideia, um projecto, um princípio partidário de governação, como Calhordas é o médico que colabora nas listas de espera, é negligente e só atende bem no consultório privado;

É Calhordas o professor que inflaciona as médias de certos alunos, passa ao lado das rubricas mais difíceis dos programas e cede à chantagem dos cábulas, como Calhordas é o desempregado que recebe o respectivo subsídio, trabalha clandestinamente e recusa, por sistema, as ofertas de emprego…

Calhordas, verdadeiramente Calhordas, caro Zé, foi a nossa selecção dos sub-21 que festejou, em França (18 do corrente), o apuramento para o europeu, destruíndo os balneários do estádio francês, numa cabal demonstração de selvajaria e primarismo e espelho de uma certa Nação que anda por aí em gritante crise de valores e identidade!

E, a lembrar, que com juventude assim que até é mostrada, como exemplo e proveito, nas revistas cor-de-rosa nacionais, nunca mais saímos da cauda da União Europeia!
Venham daí esses ossos e até de hoje a oito!




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