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Um conto de fadas

– Então pá, diz lá se não é bom viverem Braga!- Pois é… Mas é só para quem sabe!

N/D
25 Nov 2003

Já falaste com o teu banco?

– Não, amor… Falei com o teu!

Estava decidido. Era aquela casa que eles iam comprar. Parecia-lhe que o coração lhe ia saltar do peito numa imensa explosão de felicidade. Ela tinha começado a sentir uma ligeira alteração no batimento cardíaco no momento em que vira o enorme painel: “Urbanização Aedificium Magnificus – Apartamentos T2, T3 e T4 – Visite já o nosso andar modelo”. Ele olhou-a com aquele brilhozinho nos olhos e disse-lhe:
– É aqui. Que te parece?

Ela abriu um sorriso bonito e suspirou:
– Ai, amor, é lindo…

Já haviam passado alguns anos desde aquela noite de S. João em que se tinham conhecido, mas a história deles era ainda fecunda em amores à primeira vista. Agora que o sonho de comprar uma casa nova estava prestes a concretizar-se, ela tinha a certeza de que havia milagres e considerava-se um testemunho vivo dessa insofismável realidade.

O caso não era para menos. O futuro lar da jovem família correspondia, na medida do possível, àquilo que podia chamar-se uma casa de sonho. Não era muito grande, é certo, que as casas e as famílias, nos dias que correm, não são como antigamente, mas da varanda conseguia avistar-se, ao longe, o Bom Jesus, que é o equivalente bracarense a uma casa com vista para o mar. Além disso, ele, que nunca comprava gato por lebre, tinha procurado informar-se sobre o destino de toda a área envolvente e acabara por descobrir, com grande agrado, que o imenso descampado à volta da urbanização tinha sido cedido pelo proprietário à autarquia para a construção de equipamento público, em resposta a uma exigência desta. Ele sentia até um certo prazer exibicionista quando falava com os amigos:

– Estás-me a imaginar, pá? Campos de ténis, piscinas, um jardim a sério para os miúdos brincarem, sossego, acesso rápido ao centro. Uma vida de lorde!!! A partir de agora não há mais idas ao “Shopping” nas tardes de domingo, vou mas é dar uns mergulhos! Vais ver que arrumo com estes “pneuzinhos” num instante! Eu bem dizia, foi um negócio dos diabos!

– É, isso é que foi uma lança em África!

– Ó pá, é bom viver em Braga!

– É, deve ser isso…

Entretanto, o tempo foi passando e nunca mais se viam as piscinas, nem os jardins, nem os campos de ténis. Nos terrenos onde era suposto nascer o tal equipamento público cresciam agora novas urbanizações. A varanda de onde se via o Bom Jesus estava agora de frente para um prédio verde-alface com riscas cor-de-rosa fluorescente. No planeamento de uma cidade, como noutros domínios da vida, “o que hoje é verdade, amanhã é mentira”.

A família, já na nova casa, cresceu. Não muito, que a vida não está para grandes aventuras e isto não é só “pô-los no mundo”, mas cresceu. O conto de fadas acabou por ser, afinal de contas, um conto do vigário, mas a vida continuou. Ele substituiu as raquetes de ténis por um cachecol do Sporting de Braga, ela guardou a touca e o fato de banho e comprou uma bicicleta daquelas que não saem do sítio e faz exercício enquanto vê a novela da noite. As crianças, afinal, não podem ir brincar para o jardim porque não há jardim, mas o Pai Natal este ano vai trazer-lhes uma Playstation 2. São miúdos felizes e andam na Ocupação de Tempos Livres. Os amigos, esses, gozam:

– Então pá, diz lá se não é bom viver em Braga!

– Pois é… Mas é só para quem sabe!

P.S. – Esta é uma obra de ficção. Mas não garanto que qualquer semelhança com a realidade seja mera coincidência.




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