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O mundo está a mudar

Agora anda, com o colega, aos biscates, depois de ter sido despedido de forma estúpida. O mundo está a mudar.

N/D
24 Nov 2003

Seguia, na semana passada, em direcção ao Porto, pela auto-estrada A3. Dia esplendoroso de sol, de um Verão de S. Martinho ligeiramente atrasado. Viagem normal. Condução sem pressas, o que dá sempre para prestar atenção a pormenores a que não damos habitualmente atenção. Um camião seguia à minha frente, em dado ponto do percurso. A menor velocidade do que eu, pelo que sinalizei a ultrapassagem planeada. Tudo normal, não fora um círculo branco nas traseiras do veículo, com as letras HG que me despertou curiosidade. Surgiu rápida a interrogação sobre a nacionalidade. Um rápido olhar à carroçaria, um pouco mais adiante, deu-me a explicação: Hungary, ou seja, Hungria. E eu a pensar com os meus botões: como o mundo está a mudar! Quando é que seria possível deparar com um camião de um país de Leste, de há dez ou quinze anos para trás?

Já o mesmo pensamento me tem ocorrido diversas outras vezes – no hipermercado, por exemplo – quando começo a ouvir a meu lado, discretas vozes que falam línguas que provocam aquele estranha sensação de nos parecerem simultaneamente familiares e estranhas. O mesmo já se terá provavelmente passado também consigo, leitor.

Quiseram as circunstâncias – se é que querem alguma coisa as circunstâncias – que no mesmo dia do episódio do camião, tenha almoçado com dois ucranianos que tinham andado toda a manhã a preparar o terreno para plantar um jardim. Os olhares cúmplices e os sinais da vontade de comunicar eram bem mais expressivos do que as parcas palavras que era possível trocar. Quis saber se algum deles tinha cá a família. Que não. Mulher e filhos estavam longe – pude perceber, em palavras soltas e parcas, toldadas por olhares vagos e tristes. Procurei saber, então, o que faziam eles, antes de aportarem a este porto lusitano. Um era técnico. E mais não pude saber, que essa era a palavra que sobre a matéria sabia dizer.

O outro, esse, começou a falar em “radar”. E como eu aludisse a algum trabalho em aeroporto, acenou que não. E explicou com ênfase: “Míssil”. E ilustrou com as mãos e com zzzzzês, a trajectória do objecto no firmamento e, no fim, a sua explosão em algum perdido lugar. Fiquei de novo a pensar como o mundo mudou. Umas horas depois, a pessoa que contratou os ucra-nianos explicou-me sem segundos sentidos: “O dos mísseis é um tola dos diabos! Só que a fábrica, lá na Ucrânia, foi para o galheiro”. Agora anda, com o colega, aos biscates, depois de ter sido despedido de forma estúpida.
O mundo está a mudar. Se está!




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