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Eduquem-nos

Pensamos que são horas de os responsáveis pelo futebol nacional lançar uma campanha de boa educação desportiva para o Euro 2004.

N/D
24 Nov 2003

Vão-se inaugurando os estádios para o Euro 2004, com pompa e circunstância. A polémica sobre o seu custo inicial e as inevitáveis derrapagens, as exaltações dos contrários, vão-se perdendo no tempo. As cicatrizes, essas, tarde ou mal desaparecerão. Ficou no espírito da grande maioria dos portugueses a ideia de um gasto excessivo que poderia muito bem ser canalizado para outras necessidades nacionais. Este debate foi feito; o seu tempo passou e agora há que olhar de frente para os comportamentos e êxitos desportivos, se estes forem possíveis.
As vitórias ganhas no campo não serão tudo; o comportamento dos dirigentes, dos jogadores e o dos espectadores, ganha-se pela educação de base e sustenta-se pela perseverança. Ganhar é bom, mas ganhar com elevação desportiva é bastante melhor. Os jogadores portugueses, no dizer dos irlandeses, são “pouco machos, estão sempre no chão”. Os franceses depois do que os sub-21 fizeram naqueles balneários dirão agora de nós, são uns bárbaros.

As discussões e as agressões aos árbitros não se vêem com tanta frequência noutros desportos. Há que ensinar os nossos jogadores a jogar a bola mas há que mentalizá-los para o despique viril sim, mas sem violência gratuita ou fingimentos que não enganam nem a assistência, nem os árbitros, muito menos as imagens das televisões. Portugal tem de dar um exemplo de fair play que não tem sabido dar e de que tem fama de não possuir. A assistência deve saber apoiar os seus; para quê assobiar aos cinco minutos? Mas julgam os assobiadores que os seus assobiam são incentivos? É feio e não resulta. Serve apenas para dar uma nota de má criação e mostrar que Portugal tem uma assistência do terceiro mundo. O Cardeal Patriarca ficou incomodado com as assobiadelas que o Primeiro Ministro ouviu na inauguração do estádio do Benfica. Embora pensando que aquele não era o lugar apropriado para discursos políticos, outros sim lugar para desporto, desfile de atletas e hora de aligeirar, a verdade é que se cada um de nós vai assobiar de quem não gosta, ou não concorda, as nossas ruas, quiçá os lugares públicos, transformar-se-iam numa orquestra.

As paixões cegas, de que o fanatismo faz parte e dá contributo, se não são por nós dominadas e refreadas na medida da boa convivência, então este mundo torna-se um inferno e o homem iguala-se aos animais inferiores sem domínio de si mesmo. Pensamos que são horas de os responsáveis pelo futebol nacional lançar uma campanha de boa educação desportiva para o Euro 2004. De tal maneira deve ser incisiva que faça com que as pessoas tenham vergonha dos comportamentos menos sociáveis. Há que reduzir a agressividade dos discursos dos dirigentes e dentro do campo tem de haver outro desportivismo para que a má educação se não transmita em dominó para as bancadas.

Há muito a fazer. As televisões também. Devem dar o seu contributo. Não chega fazer entrar nos campos umas criancinhas transportando faixas ou camisolas com alusões ao saber jogar. É preciso que “a lição” entre em casa de cada espectador para meter-lhe pelos olhos dentro como deve portar-se. Torna-se necessário e muito urgente fazer a reconversão de velho para o novo espectador. Saibamos ganhar em comportamento aquilo que podemos não vir a ganhar na disputa. Já logo será tarde.




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