Fotografia:
Uma mostra de alegria

A destruição é total”, diz o jornalista. Está impressionado, mas não é sobre os balneários de Clermont-Ferrand que fala. O comentário refere-se à zona onde se localiza o aquartelamento italiano em Nassíria, no Iraque.

N/D
23 Nov 2003

“A destruição é total. Nos quarteirões mais próximos, não existe uma única casa intacta”, relata, no Telejornal, o jornalista da RTP. A notícia seguinte, agora sim, é sobre o balneário mais famoso da semana. Na imagem que serve de fundo ao apresentador, está escrita a palavra “destruição”.
Logo de seguida, pode-se ver bem o balneário completamente destruído. O telespectador percebe facilmente que os nossos rapazes partiram aquilo tudo.

Como é costume, apenas uma minoria condena o sucedido. O vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol afirma: “Nada, nada, mesmo nada, justifica aquilo que se passou dentro dos balneários”.

O que se passou, acrescenta, “não é próprio de jogadores profissionais de futebol”. O dirigente desportivo tem o apoio do secretário de Estado da Juventude e dos Desportos que também censura “os exageros cometidos”. Os rapazes realmente partiram aquilo tudo, mas rapidamente o tom das intervenções muda. Não vale a pena exagerar.

Os exageros cometidos afinal são os cometidos pelos comentadores. Com a distância que o tempo e o espaço permitem, o mesmo vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol, no dia seguinte e agora em Portugal, volta ao assunto para dizer que “os danos são mais em vistas do que em materiais”.

O dirigente desportivo tem razão: é preciso introduzir essa subtileza que consiste em distinguir danos em vistas e danos em materiais. Quando, para usar o exemplo mais básico, rebentam a pontapé ou incendeiam caixotes cheios de lixo ou vandalizam um sítio, os grunhos nocturnos provocam amiúde mais danos em vistas do que em materiais.

Não se percebe por que é que há gente que se perturba com os danos em vistas (e que, por conta dos danos em vistas, até embirre com a destruição da paisagem).

Para explicar a sua teoria, o vice-presidente federativo afirmou que “o tecto falso era em esferovite” – até os franceses aldrabam em matéria de construção – e que “houve de facto um termo de café que era do próprio hotel que ia connosco”.

E quanto à “mancha escura que se vê, que à primeira vista até parece sangue, mas não é, é um pacote de framboesa que eventualmente alguém atirou um pontapé e bateu na parede”.

Os pacotes de framboesa, como se sabe, são terríveis para os danos em vista. Os danos em materiais foram, portanto, poucos. “Não houve duches partidos não houve absolutamente nada”. Na verdade, “aquilo que as televisões apresentaram foi a única coisa que aconteceu”, concede o dirigente do futebol nacional.

As explicações dos jogadores conjugaram-se para provocar danos aos ouvidos dos esquisitos que gostam do bom uso da língua portuguesa.

“No balneário foi a alegria de nós e o tecto também era muito baixo e a… mas não foi nada de mais. Prontos”, sentenciou Raul Meireles. “A emoção que sentimos… levantamos todos os jogadores foram ao ar e o tecto era pequeno.

Simplesmente isso. Batemos e aquilo começou a cair tudo”, assegurou Ricardo Costa. “Estão a exagerar um bocado aquilo que… Pá… Acho não foi nada muito significante. Foi uma mostra de alegria”, garantiu Bruno Alves.

Em Portugal é assim: exagera-se sempre mesmo quando o que se passa não é “nada muito significante”. Os rapazes provocaram danos em vistas, como reconheceu o vice-presidente do futebol, danos em ouvidos, como constatou qualquer ouvinte conhecedor dos rudimentos da gramática, mas, exceptuando o pacote de framboesa e a garrafa-termo do hotel, quase não houve danos materiais.

Como o próprio treinador notou, ficaram em bom estado os armários, as sanitas e as torneiras. E, embora os homens do futebol não o tivessem referido, ficaram também em bom estado, como os telespectadores puderam ver, algumas lâmpadas de luz fluorescente.

Para José Romão, o treinador, “o que aconteceu foi uma situação simples como esta: são jovens que vêm do campo a extravasar a sua alegria, que estão num espaço de ‘ene’ metros quadrados, pequeno, com um tecto que o Bruno Vale, desculpe, quase que toca com a cabeça, e ao pegar num dirigente ao colo e com a alegria ele tocou com os joelhos e os pés num tecto falso que tem – ajudem-me na expressão – uma estrutura mínima que caiu e que depois partiu com a água. Foi isso que aconteceu”.

Além dos rapazes, houve também, como se percebe, um dirigente que com os joelhos e os pés rebentou com o tecto falso, não podendo excluir-se a possibilidade de ter sido esse dirigente a pontapear o pacote de framboesa.

Os dois minutos noticiosos permitem que o treinador diga ainda que “foi o extravasar de uma alegria que, com a água, como vocês têm assistido, quando os campeões comemoram os seus títulos… só que há balneários que são melhores.

Aquele era pequeno, tinha um tecto baixo, e sei que caíram quatro ou cinco placas que as fotografias podem demonstrar isso mesmo, que os jovens depois pisaram, arrumaram, ficou tudo intacto… ficou intacto os armá-rios, ficou intacto as sanitas, ficou intacto os balneá… as torneiras.

Por isso, meus amigos o que houve, e nós assumimos essa responsabilidade, foi de facto uma alegria talvez levada a extremos”. O treinador colocou, por fim, a pergunta que se impunha: “Mas quem adivinharia que eles tinham tanta força que um dirigente tocaria com os pés no tecto?”.

Ao achar bem, como na televisão confessou, que se parta tudo quando se está com a alegria própria dos grandes momentos, o ministro José Luís Arnaut, que tutela o desporto, cauciona, como bem se percebe, as destruições que, nos estádios portugueses do Euro 2004, forem provocadas “por uma alegria talvez levada a extremos”.

Como o treinador José Romão observou, e a frase devia ser bem meditada desde logo por autarcas e urbanistas, os jovens que vêm do campo têm dificuldades em extravasar a sua alegria em sítios pequenos (o que não se poderá dizer dos jovens que vêm da savana…).

Resta-nos esperar que os jogadores do Euro 2004 não tenham sido criados no campo. O ideal, portanto, seria recebermos apenas jogadores de aviário. Jogadores e claques, claro. É que há claques que, mais do que os jogadores, nunca perdem uma oportunidade para levar a sua alegria a extremos. A alegria e, claro, a tristeza.




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