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Os escândalos

Todos sabemos, mas não é demais lembrá-lo, que o escândalo é a indignação suscitada por uma acção, palavra ou atitude indecorosa (podemos pois considerá-la fora do comum). Como tenho tido notícia de muitos escândalos, apetece-me desabafar, contando alguns que mais me feriram a atenção.

N/D
22 Nov 2003

O Diogo e a Susana vão festejar este ano as Bodas de Prata do seu casamento. Como é normal numa vida a dois, têm tido momentos de discórdia, algumas brigas e zangas. Há porém uma coisa que ficou assente entre eles desde o começo do namoro e do noivado e continuou depois no casamento – nunca deixariam pôr-se o sol com eles zangados.
O que não tivesse razão e fosse capaz, pedia desculpa; se não fosse capaz, o mais sensato o faria. Assim a paz voltava com a reconciliação e o amor saía fortalecido.

Festejavam com muita alegria o dia em que começaram a namorar, o dia do casamento e até… o Dia dos Namorados. Isto não é um escândalo, mas sim, muitos escândalos. Casados há 25 anos? É lá possível? Isso já passou de moda. Se há brigas e zangas o melhor é ir cada um para o seu lado e procurar ser feliz! Ele vai para um apartamento até «refazer» a sua vida e ela vai para casa da mamã, feita «vítima inconformada» até aparecer finalmente o homem dos seus sonhos, pois que o primeiro… foi um engano.

O João e a Sara casaram há seis anos, têm dois filhos e estão radiantes à espera dos novos nascimentos, digo nascimentos porque a ecografia revelou que a Sara ia ter dois gémeos. Quer dizer que dentro em breve a família passará de quatro para seis. Um escândalo, nestes tempos em que vigora a política do «filho único» ou no máximo dois, isto é impensável… E maior escândalo é quando os ouvimos dizer que estão abertos à vida em clima de paternidade/maternidade responsável, isto é, ter os filhos que possam alimentar, criar e educar, sem que seja o egoísmo, a comodidade ou a cobiça, as razões da sua decisão.

A Carla, tem 20 anos e frequenta o 2.° ano da Faculdade. Procura não faltar às aulas e manter as matérias em dia. Ainda não perdeu, nem deixou em atraso qualquer disciplina. Também gosta de se divertir, saindo à noite, não obrigatoriamente todos os fins de semana, mas com frequência, só que – reparem no escândalo – escolhe criteriosamente os lugares onde vai, faz-se acompanhar de amigas(os) sensatas(os) como ela e sempre que possível pede a companhia do irmão, mais velho que ela só dois anos. Juntos saem e juntos regressam, tendo dado aos pais conhecimento dos lugares para onde vão. Isto já não se usa, temos que concordar…

O Carlos tem 17 anos e este ano queria licença para participar nas chamadas «fé-rias de Páscoa para jovens». Os pais quiseram saber como funcionava tal coisa, organizada por um Departamento do Estado, onde os que lá pontificam deviam ter maturidade suficiente; como tal não acontece, os alojamentos são mistos. Escândalo dos escândalos – os pais do Carlos disseram um não rotundo sem apelo nem agravo.

O Carlos protestou, amuou, mas nada resultou – teve de acatar as regras do jogo.

Para não dar a conhecer aos amigos(as) o escândalo, o Carlos arranjou uma desculpa qualquer.
Conheço um professor que raramente falta às aulas – só por doença ou um motivo de força maior.

Chega sempre a horas, procura de ano para ano, renovar os seus métodos para facilitar a motivação, está sempre disponível para atender os alunos mesmo fora dos tempos lectivos. Procura ser justo e mais que professor ser amigo dos alunos, recebendo em troca a simpatia destes.

As aulas decorrem sempre, reparem no escândalo, com a maior disciplina, o que não quer dizer silêncio sepulcral ou rigidez espartana. Os alunos aprendem melhor e novo escândalo, este professor ainda não precisou de recorrer ao já tristemente célebre «atestado médico psiquiátrico», pois que, mesmo que chegue ao fim da semana cansado não sofre do stress associado à indisciplina reinante em grande parte das nossas Escolas.

Numa repartição pública entrou um comerciante que precisava de um documento com muita urgência. O movimento não era muito e o funcionário que o atendeu disse-lhe amavelmente (que escândalo) que tal documento ainda demorava um tempo para ser emitido Ouvidas as razões do comerciante e reconhecendo que a falta do documento lhe ia acarretar prejuízos disse-lhe: “Vamos encerrar dentro de minutos, mas eu trato-lhe disso, quando fechar a porta – é só esperar o tempo suficiente”.

Assim aconteceu e quando ao receber o documento pronto o comerciante quis passar-lhe para mão uma certa quantia, recebeu esta resposta – um escândalo – “nem pense nisso, não aceito nada. O facto de trabalhar uns minutos fora do horário é compensado pelos dias em que há menos movimento”.

O Centro de Saúde estava cheio de doentes que esperavam a sua vez. O Centro abre as portas ao público às 9 horas, mas muitos doentes já lá estavam desde as 6 da madrugada. Passada meia hora da primeira chamada de doentes a funcionária vem avisar com ar arrogante e cara de afasta amigos que a senhora Doutora de serviço não vinha naquele dia ao Centro. Então deu-se o escândalo.

Não pensem que me estou a referir aos protestos dos doentes. Uma outra médica que ia a passar e ouviu, voltou-se para a funcionária e disse-lhe: “Por favor, faça-me a triagem dos doentes mais necessitados que eu atendo-os no fim das minhas consultas”. Isto representava mais umas horas extra de serviço não remunerado. Em tempo de reivindicações salariais, esta atitude é um escândalo.

Um médico em princípio de carreira vê entrar-lhe no consultório uma senhora ainda nova que lhe diz sem mais rodeios: “Venho pedir-lhe que me faça um aborto; já planeei as férias deste ano e não vou perder a excursão que coincide com a data do parto”. O médico, pasme-se com o escândalo, disse-lhe: “Nem que o motivo fosse um pouco mais razoável eu assassinava o seu filho – pode sair por onde entrou”.

Digam-me lá se tudo o que acabo de contar não é escandaloso. É certamente, uma vez que, fugindo da normalidade, causa indignação…




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