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«Traduttore, traditore»

Senhores livreiros, senhores tradutores, haja respeito por quem vos lê e vos compra (nada baratos!)

N/D
21 Nov 2003

Sempre pensei que este aforismo italiano que afirma que um «tradutor é um traidor», é verdadeiro e muito verdadeiro. Mas muitas das traduções que tenho lido ultimamente, diria até a maioria, têm-me fornecido ainda mais razões para achar que esta sentença dos nossos amigos transalpinos encerra uma profunda e triste verdade, ainda que esta possa parecer um pouco cáustica e exagerada.
Já li numerosos livros traduzidos ao longo da vida, e tenho deparado com traduções para todos os gostos, desde o bom ao muito mau, como é, até certo ponto, natural. Mas tenho notado ultimamente um abaixamento notável na qualidade das traduções que nos são oferecidas.

Não vou citar títulos de livros e menos de tradutores, mas poderia fazê-lo e sem dificuldade de arranjar, sem grande trabalho, uma lista razoável, pela simples razão de que essas traduções são, quase todas, muito más!

Se assim continuamos, o número de “traidores” em Portugal vai aumentar substancialmente, e teremos que estudar uma boa fórmula para “castigar” uma tão grande multidão que “atraiçoa” a seriedade intelectual daquilo que é oferecido ao leitor como bom, mas não o é…

A agravar a situação, podemos apontar o facto de que, na maioria dos casos, o leitor não tem a possibilidade de cotejar a tradução com o original, ou porque não tem o livro estrangeiro ou não conhece a língua em que está escrito. Pessoalmente, pude fazê-lo nalguns casos e pude descobrir “traições” verdadeiramente escandalosas!

Porque é que tudo isto acontecerá?

As razões podem ser muitas, mas deter-me-ei naquelas que me parecem mais importantes.

A primeira creio ser a que consiste em pensar que é fácil fazer uma tradução. Ora, a meu ver, é um trabalho difícil, e bem difícil, de realizar. E porquê? Porque é necessário conhecer profundamente as duas línguas em causa, para poder “entregar” ao leitor o verdadeiro sentido daquilo que o autor original queria dizer com aquilo que disse, melhor, que escreveu.

Só assim se poderá, por exemplo, evitar cair na armadilha daquilo que os franceses chamam “faux amis” (falsos amigos), ou seja, palavras semelhantes em duas línguas, mas que têm um significado muito diferente, às vezes totalmente diferente, numa e noutra.

Prende-se com esta razão aquilo que se chama “tradução à letra”. Esta só deve ser utilizada por razões pedagógicas e deve ter logo a seguir a tradução verdadeira, que pode estar bastante longe da mencionada “tradução à letra”. Normalmente traduzir palavra por palavra revela ignorância e atraiçoa o verdadeiro significado.

Uma segunda razão poderá estar em que se confiam traduções a pessoas que não são especialistas numa determinada matéria. E quando assim é, não se pode esperar uma tradução rigorosa. Com efeito, para fazer uma boa tradução, não basta dominar uma determinada língua em geral, porque quando se trata de um assunto técnico, este possui um vocabulário próprio que só os “iniciados” podem entender.

Uma terceira razão penso ser a pressa em “deitar para fora” o livro quanto antes, em “despachar” a tradução no mínimo lapso de tempo possível. Tenho notado essa pressa em vários livros que, pelas razões que seja, convém pôr no mercado o mais depressa que se puder. E uma dessas razões, e talvez a mais comum, seja o factor económico, unida à razão derivada da competição. Ora nenhum destes motivos devia ser determinante na hora de oferecer ao público uma obra útil e de qualidade.

Lembrem-se aqueles que se deixam levar pela pressa que esta é inimiga de uma tradução séria. «Depressa e bem, há pouco quem», diz o refrão. E eu acrescentaria que no caso das traduções «não há ninguém que…»

E este afogadilho nota-se não só nas más traduções, mas também nos sinais de pontuação errados, nas gralhas mais evidentes e fáceis de detectar, das letras que faltam ou estão a mais, etc. Tem-se a impressão (e oxalá esta impressão fosse falsa…) de que tudo é feito sobre o joelho, não se revêem provas, de que, portanto, o que vai para a tipografia, sai de lá em forma de livro, à primeira e sem mais problemas!

Senhores livreiros, senhores tradutores, haja respeito por quem vos lê e vos compra (nada baratos!). O público merece esse respeito e essa consideração; merece não ser “atraiçoado” tão frequente e gravemente.

Não basta melhorar a apresentação gráfica e nisto tem-se progredido, sem dúvida. Esse aperfeiçoamento é importante, mas convém não esquecer que ele constitui somente o “invólucro” exterior, a “casca”. O conteúdo, e sobretudo o conteúdo, é que deve melhorar e tem que melhorar, para que haja menos “traidores” e mais “fiéis” àquilo que o leitor espera e a que tem direito.




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