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Mais terrorismo não, futuros doutores

Já morreram muitos mas não são poucos os que ainda hoje estão vivos. Todos tiveram de fazer frente à tenebrosa PIDE, só porque não tinham a liberdade de dizer não à ditadura que os amordaçava.

N/D
21 Nov 2003

Muitos galgaram a fronteira para, lá fora, longe da família, continuar os seus estudos; outros foram confrontados com a impossibilidade de concorrer a cargos públicos porque se recusaram a assinar a imposta declaração fascista que os obrigava a alinhar pela “Ordem Social Estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas”; não poucos sofreram torturas físicas e psíquicas nos calabouços da odiosa polícia política. Tudo isto para quê? Para que todo o cidadão tivesse a liberdade de eleger um parlamento, de criticar o governo, de ter um passaporte para passear, trabalhar ou estudar por esse mundo fora, sem o controlo político dos ilegítimos governos.
O estudante de Coimbra vibrou sempre de exaltação patriótica! Tomou parte na guerra da Restauração, a pedido de D. João IV. E é em princípios do século XIX que o Batalhão Académico se distingue na resistência contra a invasão francesa comandada por Junot.

Apesar de estar sob a alçada de um regime autoritário, vieram para a rua fazendo greve em 1969, confrontando a polícia, como outros o fizeram no passado. Para quê? Não para reivindicar privilégios para si próprios, como o fazem agora, mas sim para forçar a mudança do regime arcaico e encher os pulmões de ar fresco da liberdade que já se vivia há muito para lá dos Pirinéus. Não fora essa luta desigual e essa simbólica porta férrea não teria sido hoje abusivamente encerrada a cadeado. E muito menos sequestrados os seus prestigiados professores.

Por Coimbra, e vivendo por dentro a praxe, passaram estudantes que mais tarde se vieram a tornar célebres nas letras, na ciência e na política. Já Luís Vaz de Camões (?), no século XVI, se afirmou como um dos maiores boémios e mais tarde como poeta de todos os tempos enquanto tempo houver; Almeida Garrett, o reformador do Teatro Português, também lutou pela liberdade e a ele se deve o apelo à revolta liberal no célebre verso «vivamos livres ou morramos homens»; Camilo Castelo Branco (?), que tanto sofreu na cadeia da Relação do Porto, por ter desejado a mulher do próximo, por lá andou a tentar os preparatórios jurídicos e também os de Medicina; Alexandre Herculano, o historiador que tanto praticou a regra da probidade; Eça de Queiroz, um dos grandes escritores da geração de 70, não só no estilo, mas também na ironia; António Nobre que cantou o Penedo da Saudade, as tricanas, sem esquecer o Mondego: «Vou encher a bilha e trago-a / vazia, como a levei / Mondego, que é da tua água? / Que é dos prantos que chorei?»

E as já longínquas recordações de Coimbra continuam a ser cantadas pelos académicos poetas: «Se esta velha pedra ouvisse / O que rimos aos vinte anos / Ais de amor, sonhos, enganos… / Talvez a rir se partisse. / Mas tivesse olhos e olhasse / Os espectros que hoje somos / Tão mudados do que fomos… / Talvez a pedra chorasse».

É dura a partida! Daí, Coimbra tem mais encantos na hora da despedida. E é a própria praxe que mais agarra o estudante à Coimbra do seu tempo. Espera todos os anos pelos futuros caloiros e eles já sonham antes com ela. E até à festa da queima das fitas, em Maio seguinte, não lhes dá descanso.

Começa a caminhada que vai percorrer desde caloiro – semi-puto, puto, quartanista, quintanista e veterano. E quem sabe se chega a ser eleito “dux veteranorum”. Quantas vezes terá de enfrentar as “trupes” e levar nas unhas. O estudante de Coimbra é boémio e brincalhão. Mas sabe brincar. Cultiva a piada com espírito. É de uma alegria e graça contagiantes.

O Sol de Abril, tarde sim, mas chegou. A tempo de tornar livres as novas gerações. Mesmo assim, nem tudo foram rosas. Cedo o horizonte se toldou de incertezas. A academia foi, então, vítima de manipulações. Ficou doente e a convalescença tem sido morosa. Tem procurado arribar, mas ainda é um ténue sinal do que fora no passado recente e longínquo. E a ameaça do não regresso a esse passado paira sobre a Lusa Atenas. Quiseram fazer da nossa querida Universidade uma fábrica e forçar os estudantes a trocar a capa por trajo de ganga.

Perdeu-se o elo de ligação à fraternidade e solidariedade entre professores e alunos. A praxe abrangia uns e outros. Todos a amavam.

O que se está a passar agora, na Associação Académica, descaracteriza essa velha harmonia – sã confraternização entre professores e alunos.

Se não é, até parece estarmos a assistir, novamente, a uma outra manipulação de estudantes ingénuos, mas politicamente ambiciosos.

É um paradoxo o não acatamento, e por processos violentos, das decisões da Universidade. E é do lado de quem, mais que ninguém, tem o dever de observar a lei, que vem o mau exemplo de não a cumprir! Mesmo sem o apoio do povo e da comunicação social, insistem nos injustos privilégios! E não há quem, numa Assembleia geral, levante a voz e denuncie a presumível manipulação, ou então a injusta e vergonhosa reivindicação. Ser estudante de Coimbra é um privilégio de poucos. Por dificuldades económicas, não são poucos os que lá não chegaram. Outros ainda, por razões diversas, com muito sacrifício, frequentam as universidades privadas, onde se paga, sem discutir, muito, mas muito mais do que se paga nas universidades públicas. E, mesmo assim, naquelas não há greves.

Porquê? Só porque o dinheiro tem outra origem. Não é dos contribuintes.

Nós, os que, em tempos difíceis, tivemos o privilégio de pertencer a essa nacional e internacionalmente credenciada Universidade, sentimo-nos traídos e de rosto corado de vergonha.
Reflictam por um momento, recuperem a lucidez, respeitem essa velha Catedral de Coimbra que tanta alegria deu a quem por lá passou.

Mais terrorismo não, futuros doutores.




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