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Que Europa? E que mundo?

Que me seja relevada a ousadia, não é outra a palavra mais indicada, para o acto que me empurra a glosar/comentar, e com assumido prazer, conceitos e ideias, premonições e receios do Prof. A. Rocha, ilustre e habitual valorizador das páginas deste Jornal.

N/D
19 Nov 2003

Caro Prof, leio sempre que posso, e posso quase sempre, os seus textos publicados neste “Espaço Aberto” do D.M. Concordo. Discordo. Mas esse circunstancialismo não tem retirado um grama que seja ao interesse com que os leio de fio a pavio…
Temos uma formação e um background muito diferenciado. Do seu lado uma sólida preparação e carreira académicas; do meu, uma história de empenhamento cívico e político, uma doutrina filosófica e convicções inabaláveis. Como handicap uma menor dimensão académica. Se tal cortejo faço é apenas porque a diversidade dos percursos e saberes em nada me apouca ou sobreleva.

O facto é que temos distintas experiências e formações e daí que cada um de nós transporte a sua própria cosmovisão. Nada afinal que não enriqueça e fecunde o Diálogo que aqui me traz.

Diferentes as fontes onde bebemos, mas iguais, similares e sinceras as preocupações e “sedes”.

Como esta do futuro da Europa! A questão é de tão grande interesse e acuidade que só lhe posso dizer: continue, insista nela! Sem que algum de nós se iluda: pois com que descanso mental, com que vontade é que o bracarense médio virá a gastar um pouco do seu sobreocupado tempo a pensar sobre este problema? A Europa é lá e não cá. Amanhã os problemas cair-lhe-ão em cima, mas hoje está mais desperto para as promoções do Feira N. ou dos Quatro Mosqueteiros. E qual a surpresa?

Os problemas do seu dia a dia não são o desemprego ou a sua iminência, os altos custos da saúde e da educação da prole?

Ainda assim, insista, para que se não diga amanhã que a intelligentzia não cumpriu o seu papel de esclarecer, alertar e mobilizar.

A mim, a União Europeia (já é quase tudo o mesmo, U.E. ou Europa) merece-me, por raizes entroncadas em fontes do pensamento mais materialista, no pensamento e estudos de Marx, de Engels e Lénine (“o Imperialismo, Estádio Supremo do Capitalismo”) e de outros que, mais utópica que cientificamente, os precederam e inspiraram.

A mim, repito a questão desse futuro merece-me maiores e mais radicais dúvidas. Embora esteja de acordo que se deve trabalhar no presente das respectivas instituições para deixar perder o menos possível, pois são os povos que perdem.

Então o argumento da “eficácia”, cujo (ab)uso tão acertadamente condena (ela serve sempre dois amos segundo as conveniências…), usado agora para justificar a Constituição Europeia, o Federalismo e até o referendo, raia o imoral.

Fazer-se o referendo no mesmo dia das Eleições para o P.E., como quer o sr. Primeiro Ministro? Ou mesmo depois destas? Para quê então a Farsa? Onde residiria, como V. muito bem assinala a legitimação do Acto?

Para que conceitos, ou modelos e práticas democráticas caminhamos nesta “modernidade”? Se há já a telemetria, a teledemocracia e outras, porque não uma “tecnolegitimocracia”?

Mas, no meio destes sofisticadíssimos modelos de democracia ocidental, qual o lugar e o papel do Povo?
Estaremos (estarão os senhores do mundo) a querer fazer um Planeta para outra espécie que não a dos actuais Humanos. Alguns cinéfilos ou leitores se lembrarão com um arrepio da situação a que homens e mulheres estavam a ser conduzidos na ficção de Ray Bradburry “Os 439 graus Fahrenheit”? Recomenda-se ainda.

Finalmente e para que não fiquem dúvidas das minhas opções e da maior profundidade das discordâncias com o prof. A.R., permita-me que lhe relembre esta frase que cito de memória: O Capitalismo é insaciável – pela sua própria natureza. O autor é do séc. XIX. Mas a História dos homens, a acumulação primitiva do capital, a escravatura, o colonialismo, a Revolução Industrial, a Guerra Nazi, o Chile de Allende, a Palestina, Afganistão, Iraque, lembram de forma tão dolorosa aquela terrível “profecia”.

É provavelmente compreensível hoje ouvir: os tempos agora são outros, há avanços irreversíveis na resistência da humanidade à barbárie, a História e a Civilização humanas estão noutro patamar.

(Cinicamente é admissível dizer-se: pois, hoje destroem-se os corpos humanos, mas as casas, a propriedade física fica intacta, as máquinas de guerra têm precisão cirúrgica. E acima de tudo, o Iraque está agora a ser).

Mas, dando o devido relevo a estas advertências, advogo a minha tese de outro modo: Os povos, as identidades nacionais, as barreiras que eles e elas constituem (para a Globalização neoliberal, realidade que encerra muito e, nada inocentemente, confunde muitos) são um entrave para a realização dos mesmos móbeis de sempre do Capitalismo global – a obtenção do lucro máximo.

E a superação das contradições que ciclicamente o vão atormentando (os economistas não o negam) precisa hoje de: espaços mais vastos para a colocação da “sobreprodução” e os desvastadores movimentos especulativos num abrir e fechar de olhos, mais contingentes de potenciais consumidores com alguns subsídios para poderem comprar (quantas centenas de milhar serão agora na futura Europa dos 25?) e maiores facilidades legais, tecnológicas e outras, para a circulação do capital, da mão de obra e das empresas – ai a nossa têxtil, electrónica, calçado e outras. Ou seja, ainda continua a ser feita (a recuperação e a retoma) à custa de sangue, miséria, abjecção, desumanidade. Mais ou menos como há muitos séculos atrás.

E, como ele tem sabido resistir e retomar, é que é obra para muitos e novos estudos em que todos aqueles que o querem combater e remover se devem empenhar.

Em nome da Espécie Humana e do Planeta Azul.

Com os meus sinceros cumprimentos. Ao seu dispôr.




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