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Escândalos farisaicos do nosso tempo

Quando alguma pessoa com responsabilidadese enfrentacom os seus “dogmas”,imediatamente se levantam vozes indignadas, afirmando a excelência desse método anti-conceptivo, apesar das constantes.descobertas
da sua insuficiência
e do perigo
de que se reveste
o seu uso ad libitum

N/D
18 Nov 2003

Não há muito tempo, o cardeal López Trujillo, presidente de uma importante Congregação da Santa Sé, em entrevista à BBC, observou que o preservativo não era um instrumento que protegesse suficientemente o seu utilizador contra o vírus da SIDA. Não teve outra intenção este purpurado, salvo a de chamar a atenção para um facto que toda a gente sabe: que a utilização deste anti-conceptivo mecânico não é absolutamente eficaz como meio preventivo terapêutico e de que o seu uso generalizado pode criar situações extremamente complexas e ilusórias, porque – é sempre bom não esquecer – tal vírus continua a ser letal e implacável.

Por outro lado, é suposto que López Trujillo não advoga o seu uso também por razões morais. E propõe para ajudar a solucionar o problema da sexualidade outros horizontes de orientação, relacionados com a vivência da virtude da castidade, que anda muito esquecida nos nossos dias.

Inclusivamente dentro da própria Igreja, porque se antigamente este assunto era tabu e carregado de tintas pecaminosas, actualmente, o tabu impera ainda de forma mais abrangente, porque existe uma espécie de temor reverencial de abordar o tema do pecado da luxúria. Fala-se muito pouco ou quase nada sobre ele, continuando a sentir-se uma espécie de reserva prudencial a respeito desta problemática; os comportamentos, neste campo, dir-se-ia, passaram a ser, mais do que pecaminosos, morais ou imorais, um assunto da consciência de cada fiel, que não se forma e se deixa entregue a si mesma, por ausência de critérios. Nesta perspectiva, que não se me afigura, infelizmente, demasiado exagerada, a vivência da castidade transforma-se numa virtude adiada ou postergada.

Ora bem: o que preconiza o referido cardeal implica, pois, a mudança de comportamento das pessoas, já que defende a continência habitual, a fidelidade matrimonial também no uso do sexo, a desones-tidade e as consequências negativas das relações pré-matrimoniais e tantas e tantas outras directrizes, que, de acordo com a moda e os costumes laxistas das nossas sociedades, representam um retrocesso e uma incapacidade para o homem dos nossos dias assumir.

Por isso, quando alguma pessoa com responsabilidade se enfrenta com os seus “dogmas”, imediatamente se levantam vozes indignadas, afirmando a excelência desse método anti-conceptivo, apesar das constantes descobertas da sua insuficiência e do perigo de que se reveste o seu uso ad libitum. Ninguém contesta, começando pelo próprio cardeal López Trujillo, que usar o preservativo pode certamente diminuir os perigos de contágio desta doença. Mas não a evita. A tal ponto, que a Dr.ª Helen Singer Kaplan, sexóloga e directora do “Human Sexuality Program”, do Medical Center da Cornell University de Nova York, observava numa das suas obras que “contar com os preservativos [para evitar a SIDA] é fazer a corte à morte”.

Num campo mais favorável à eficácia deste método, os falhanços são notórios. Referimo-nos à sua eficiência em evitar gravidezes. De notar, que o vírus da SIDA é profundamente subtil – pelas suas dimensões bem mais reduzidas do que o espermatozóide – em superar obstáculos como o látex, que compõe a matéria prima do preservativo. E isto na suposição de que o dispositivo é usado adequadamente e sem acidentes de percurso.

Ora bem: num estudo recente realizado em França (Le Monde, 3/05/03) sobre gravidezes não desejadas, verificou-se que 50% das mulheres cujo companheiro recorria ao preservativo habitualmente, declararam que ele se rompeu ou deslizou durante o acto. E em Espanha, ainda mais recentemente (La Vanguardia, 6/10/03), numa amostra de 553 mulheres que abortaram (destas três em cada quatro usavam anti-conceptivos), 60,4% afirmaram que o método utilizado era o preservativo.

A OMS, mais prudente e menos escandalizadiça do que alguns elementos que nela trabalham e se sentiram tão abespinhados com a observação do cardeal, limita-se a dizer o que ele disse, ou seja, que o preservativo reduz o risco de contaminação, mas não a inibe de forma absoluta. Eis a razão pela qual este escândalo e tais reacções fazem lembrar alguns fariseus do tempo de Cristo.

A propósito, interessante o comentário de João Cutileiro, no Expresso de 8/11/03, sobre o HIV, que transcrevemos: “Para combater a SIDA, o Papa prega fidelidade conjugal e abstinência dos solteiros.

A sua condenação de outros métodos anticoncepcionais tem sido considerada irresponsável e nociva, até por católicos. Estudos recentes, porém, mostram que os países afligidos pelo flagelo onde a taxa de HIV desceu mais são aqueles em que as campanhas de profilaxia preconizam exactamente a abstinência e a fidelidade”. E apresenta alguns exemplos chamativos das nações onde isso se tem verificado.




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