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Perdemos as grandes causas

A asa que outrora suportou altos objectivos humanistas perdeu envergadura e agora, desafeita do voo, já não se ergue em direcção aos céus

N/D
17 Nov 2003

O que muito me admira é ainda haver pessoas com capacidade de se admirarem. Ficam extraordinariamente chocadas com os desvios sociais e não crêem na sua boa fé e formação de base em indivíduos que possam abusar de crianças, de estuprar mulheres indefesas, de roubar pessoas idosas ou assassinar a sangue frio. Esta sensibilidade para o arrepio da alma seria um excelente sinal de que a humanidade ainda tem um sopro de dignidade e não está tão insensível aos valores humanos como se deseja a todo passo. Seria se fosse este o comportamento da maioria. Mas não é assim.

A humanidade foi-se tornando insensível ao sofrimento alheio, foi-se fechando em seus egoísmos e deixando de olhar para os outros por variadíssimos motivos que sociólogos e outros dão-nos testemunho em seus estudos e conclusões. Por esta razão de cada um olhar só para si e nada para o seu semelhante é que nos tempos que correm nunca se falou tanto em solidariedade, em doação e em voluntarismo. Quando tudo o mais falha, quando o homem se sente perdido em seus cometimentos, quando todos verificam que andar neste mundo não é navegar sem rumo ou sentido, e quando esse rumo e esse sentido não têm timoneiros, então viram-se para os valores quais bússolas de norte seguro e bom porto de abrigo. Isto leva-nos a reflectir por que razão os peditórios para as obras de grande vulto como a dos Cegos, das Casas do Gaiato, do Padre David, Lar do Comércio, etc., etc., deixaram de se fazer? Onde estão as grandes causas? Onde está a poesia da vida que destas coisas se compõe? E as miragens de felicidade da dádiva sem retorno por onde pára?

Morreram. Perdidas as grandes causas vieram as pequenas na sua mesquinhez de migalha. Esta faculdade de ser no outro já não habita em nós como não moram os faunos e as dríades nas clareiras dos bosques, dos rios e lagos sonoros e cristalinos à sombra de oliveiras cor de cinza ou de choupos mimosos. Pertencem ao romantismo. Reparem como os estudantes de Coimbra se refugiam na luta das propinas porque lhes faltam os grandes causas por que lutar. E assim a sociedade se refugia na abundância material porque igualmente não tem apelo em si para causas de maior vulto. A asa que outrora suportou altos objectivos humanistas perdeu envergadura e agora, desafeita do voo, já não se ergue em direcção aos céus. Vivemos presos da montra que nos mostra a moda e da competição com o conhecido que nos exige ser igual, ou, quase sempre, nos obriga a superá-lo. É esta carreira cega que nos cega. E isto parece ainda ir para lá e não se sabe se haverá regresso. O comportamento colectivo reduziu há muito as suas dimensões e capacidades de se espantar; torna-se agora apenas um pequeno anfiteatro onde, além das ambições humanas de ter e poder e riquezas de novos imperadores, se revela o individualismo como actor. A solo nesta orquestra de sons desafinados estamos todos e todos colaboramos assiduamente.




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