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Um sinaleiro especial

Passava os dias, com um sorriso estampado no rosto pelo dever assim voluntariamente cumprido

N/D
14 Nov 2003

Não há dia em que os jornais não tragam (pelo menos) uma notícia ou as televisões não dêem (pelo menos) uma reportagem de um acidente de trânsito, por vezes “acompanhado” por um outro de trabalho. As causas e as consequências são bem conhecidas; mas por norma continua-se a prevaricar ou a cometer os excessos porque… já se fez tantas vezes e nada aconteceu, porque… é só mais uma (antes da próxima). Além de mais, esses azares só acontecem aos outros; até que um dia nos toca a vez e, na melhor das hipóteses, vimos a ficar em estado de contar como tudo aconteceu, que não com capacidade de o voltarmos a repetir; e a pior só acontece uma vez na vida…
Há cerca de cinquenta anos as estradas eram (muito) mais estreitas e os carros andavam (muito) mais devagar que hoje em dia; mas já havia, como hoje, acidentes. Nessa altura conheci-o, sem os membros inferiores e entregue à sua missão, que voluntariamente abraçara, de tentar evitar acidentes naquela curva sem visibilidade para os automobilistas. Nunca tive àvontade para lhe perguntar a causa do mal do corpo pois tinha receio de lhe avivar a ferida muito provavelmente aberta na alma. Mas de vez em quando observava-o no seu posto de vigilância, uma pequena barraca de madeira colocada estrategicamente do lado de fora daquela apertada curva, naturalmente afastada da faixa de rodagem, para onde a mulher o levava de manhã e de onde o retirava ao fim da tarde.

Era ali que ele passava os dias, com um sorriso estampado no rosto pelo dever assim voluntariamente cumprido. O olhar atento percorria a estrada ora para a esquerda ora para a direita a fim de detectar a aproximação de qualquer carro. Nessa altura levantava, por meio de uma corda, a placa oblonga que mostrava ao respectivo condutor a face verde, ficando a vermelha oposta do lado contrário, para avisar qualquer condutor que entretanto se aproximasse em sentido contrário.

Quantos acidentes terá evitado? Quantos agradecimentos terá recebido? Quantas amizades terá granjeado? Não sei porque o perdi de vista após ter descrito aquela curva maior na estrada da Vida.




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