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O jornalismo e a verdade

O jornalista não pode prescindir de duas virtudes:a independência pessoal e o amor da verdade

N/D
14 Nov 2003

Ojornalismo é uma profissão e uma arte.

Como profissão, deve ter deontologia; como arte, deve ser exercido com ciência e beleza.
Não é fácil ser jornalista.

Nem todo aquele que escreve o é – será, talvez o meu caso -, porque a escrita do jornal tem características diferentes da usada no livro ou na revista.

O mesmo se poderá dizer da oralidade da rádio e da televisão.

O jornalismo, como tudo neste mundo, exige carisma e determinadas qualidades.

Ultimamente, surgiram determinados grupos de jovens que, talvez, à falta de melhor, enveredaram por esta profissão, sem que, pelo que se lê e ouve, até à data e salvas boas excepções, tenham demonstrado aptidões para a escolha feita.

As maçudas e repetitivas notícias da televisão, sobre o caso da pedofilia na Casa Pia, são, a meu ver, entre outras coisas, provas cabais da referida falta de aptidão para tais andanças.

Como resultado, na escrita do jornal e, sobretudo, na oralidade da rádio e da televisão, «assassinam» continuadamente a gramática da língua, desrespeitam os mais elementares códigos jornalísticos e não raro colocam os interesses comerciais acima do valor literário.

Ora, o valor literário do que se diz e escreve, bem como o respeito pelo profissionalismo da classe, sempre foram bandeiras desfraldadas, por todos os que a esta sublime arte se dedicaram.

Antigamente, era muito difícil encontrar um jornalista profissional que transpirasse facciosismo e que «vendesse a alma ao diabo».

Hoje, em meia dúzia de linhas, adivinha-se logo o clube ou o partido a que o dito jornalista pertence.
Que haja jornais específicos e alinhados ainda se compreende; agora, jornalistas «barrigas de aluguer», não.

A independência pessoal do jor-nalista e a verdade objectiva do acon-tecimento não deixam o profissional do jornalismo «fazer fretes», sob pena de se privar da primeira e desestimar a segunda.

O que não quer dizer que não haja jornalismo de opinião, confronto e debate de ideias, desde que estas sejam próprias ou por nós livremente perfilhadas.

Agora, escrever a mando deste interessado ou ser «pau mandado» daquele, por vezes, contra a nossa verdade e opinião, não.

O jornalista não pode prescindir de duas virtudes: a independência pessoal e o amor da verdade.
Quanto a mim, sem independência e verdade, não há jornalismo.

Independência de qualquer facção política, lúdica ou social; verdade objectiva, perante a qual, qualquer paixão, por mais legítima que seja, abate bandeira.

Ultimamente, tem surgido em certos jornais determinadas notícias que, por motivos de constatação, foram logo desmentidas.

O facto demonstra pouco cuidado na investigação e leveza na recolha de dados comprovativos.

Não sei se não haverá, nos casos registados, um aproveitamento indevido da protecção que a lei concede ao jornalista para não revelar as fontes informativas ou, então, se não estaremos, perante uma atitude voluntária de procurar o escândalo, na mira do grande título da primeira página.

Em qualquer dos casos, há falta de deontologia jornalística e não é aceitável este procedimento que, mais cedo ou mais tarde, traz funestas consequências ao jornal.




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