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A escola mista e os seus problemas (II)

Na sequência do artigo anterior, em que referimos uma entrevista do sociólogo francês Michel Fize de carácter recente, continuaremos a abordar este tema nas linhas de hoje.

N/D
11 Nov 2003

Nele se recordava a inexistência de soluções mágicas para o tipo de ensino. Ora, essa atitude foi defendida em relação à coeducação por muito boa gente, não tanto fundada em razões pedagógicas profundas, mas numa convicção de que rapazes e raparigas juntos, em todas as circunstâncias educativas, acabariam por se entender melhor, quebrar tabus que a educação separada tornou insolúveis e, enfim, aumentar o rendimento académico de uns e de outras pela emulação da sua presença recíproca.
Michel Fize, sem pôr em causa as virtualidades do sistema coeducativo, negou que o estudo aturado dos resultados confirmassem essa espécie de certeza premonitória. Ao invés, ele mostra-se menos apto do que o separado em determinadas situações, pelo que só a teimosia de alguns quer fazer prevalecer a ideia, que se está esbatendo lentamente, de que serve para dar solução a todos os problemas.

E aponta casos: “(…) nos países anglo-saxónicos, as raparigas de meios populares escolarizados em centros não mistos obtêm melhores resultados do que as outras. O que prova que a aprendizagem separada influi nos resultados”.

Outro tema que se esquece com frequência é de que rapazes e raparigas têm os seus ritmos de crescimento e de maturação distintos, além de gostos e propensões também diversos. Por exemplo: “(…) todos os estudos científicos atestam essas diferenças. Sabe-se hoje que os rapazes têm melhor percepção do espaço e do lugar que ocupam os objectos do que as raparigas. Estas, em contrapartida, salientam-se mais em tarefas em que intervém a linguagem. Força física, velocidade, encontram-se do lado dos varões, enquanto a graça artística e a flexibilidade do lado das raparigas”.

Continuando a citar o mesmo autor, recorda um aspecto que também se ignora muitas vezes: o problema da adolescência. Aqui, a escola mista torna-se o lugar propício a não resolver as questões que nela se levantam: “É o elo débil do sistema educativo [refere-se ao francês – público -, que monopoliza a coeducação como prescrição]. Aí se encontram todas as dificuldades: puberdade, violências sexistas, fracasso escolar. Também aqui – sublinha – poderia contemplar-se este tipo de dispositivo [isto é, a possibilidade da educação separada] na formação profissional, para aquelas orientações onde a presença feminina tem pouca presença”.

Fize convida, por fim, a uma reflexão de fundo sobre a eficácia do ensino misto e o tabu que obriga a impô-lo como norma.

É interessante que estes problemas se levantem actualmente, em benefício dos jovens, que são o escopo fundamental de todo o sistema educativo. É preciso pô-los nas melhores condições de aprendizagem. E não é por lei que se consegue esse objectivo, nomeadamente se ela pode conduzir – como a experiência demonstra – para circunstâncias em que uma moda educativa, originada mais por razões ideológicas pontuais do que por conclusões científicas, põe em risco a rentabilidade do ensino e da aprendizagem.

Só uma posição crítica e objectiva, sem preconceitos, sobre as tarefas de ensino e de educação é capaz de discernir o trigo do joio. Mesmo assim, deve contar-se sempre com a relatividade das soluções que se preconizam, pois este é o campo onde se exercita, duma maneira mais explícita, a liberdade do homem, que não se deixa contornar por preconceitos ou teorias que a querem determinar indevidamente. E que péssima solução seria apresentar como paradigma universal de eficácia e bondade um método que, além de não ser perfeito, apresenta tantas e tantas desvantagens, como chamou a atenção Miguel Fize.

A paixão na defesa dum sistema vulnerável torna o desalento o modo de resposta mais exuberante quando nos apercebemos das suas mazelas. Não será isto o que se depreende de certas feministas alemãs que, paladinas da coeducação em prol da libertação da rapariga, ao encararem na prática os seus resultados, passaram a chamar-lhe “koeducação”?




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