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Aposentaram-me

Encontrei-o na rua do Souto. Há anos que o não via e depois de retribuirmos cumprimentos lisonjeiros sobre o nosso aspecto físico, entramos na conversação a sério. “Estou aposentado há dois meses, ou melhor dizendo, aposentaramme há dois meses”.

N/D
10 Nov 2003

Como me pareceu haver uma certa ironia naquele aposentaram-me perguntei-lhe o porquê do azedume. “Porque eu sentia-me com forças e capacidades suficientes para continuar a desempenhar o meu lugar. Mas por uma peregrina determinação legal entenderam os senhores que olham para o bilhete de identidade que eu já não estava capaz, que precisava de descansar e até me fizeram uma festa de despedida que é uma espécie de funeral antecipado. A diferença é que neste estamos de olhos abertos e no outro não, de resto em tudo se assemelha.
Mas quem lhes disse que eu queria descansar? Eu nem me sentia incapaz, nem cansado de coisíssima nenhuma. Eu era útil ao serviço, eu gostava de trabalhar, amava ter a canseira do levantar a horas, almoçar a horas, regressar a casa a horas, gozar férias, voltar ao serviço…. esta obrigação tomou-se devoção… primeiro ritual depois devoção, assim é que é… agora que eles determinaram pelo BI que eu não presto, que estou gasto, que me devia retirar é que me sinto cansado, estafado, vadio e velho. Sou osso esbulhado que nem os cães olham com desejo.

Não me olhes dessa maneira… sinto o peso desta inutilidade, deste olhar para o relógio que marca o tempo vazio, deste deambular sem sentido pelos jardins e parques, deste inventar idas ao médico e laboratórios para ter calendário… imagina que eu não gramava telenovelas, ouvir falar brasileiro para mim era um suplício, olhar para a ficção portuguesa era uma agonia, pois, calcula lá amigo, que já oiço as telenovelas brasileiras e até pergunto à mulher se o Tony sempre vai casar com a Isabel? Isto é a degradação completa da identidade enquanto memória do que foi.

Neste pântano me encontro agora, atolado de nadas até ao mais ínfimo do meu ser, só porque determinaram pelo BI que eu estou velho, esclerosado e incapaz para servir. E é mentira, «gritarei até que a voz me doa». O tempo passa depressa dizem-me, mas eu afirmo-te plenamente consciente do que digo, o tempo passou depressa quando o contei em anos de trabalho, mas o tempo de aposentado custa muito a passar ainda que o conte ao segundo”.

E o meu amigo não pôde deixar de olhar para o lado tentando disfarçar os olhos molhados da emoção. Vi-o dar meia volta acompanhado de pronto pela mulher que o levava no afago certo de algumas palavras de consolação. Fiquei-me absorto nas minhas cogitações. E destas tirei a certeza de que a aposentação só deveria ser assim concedida aqueles que a pedissem por livre iniciativa e não quando a data do nascimento lhes marcasse um limite. Fiquei a pensar que aquele meu amigo sabia tanto, tinha tanta experiência, e com elas tantos poderiam aprender tanto, que a sua aposentação era uma violência. No entanto, todo este capital investido ao longo dos anos, toda esta aprendizagem refinada pelo uso das práticas, resumia-se agora na amargura daquele ser que queria continuar a ser útil e também naquele relógio que lhe deram na hora da partida. Como se ele agora precisasse de horas!




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