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Não somos tão bons como os melhores nem tão maus como os piores

Todos os incontáveis livros que por aí há sobre auto-estima recomendam que não nos comparemos com os que são melhores do que nós para não ficarmos amargos. Também nos aconselham a não nos compararmos com os piores para evitar o risco de ficarmos vaidosos. Muita da nossa presente amargura nacional deriva das comparações que continuamente fazemos entre Portugal e os restantes países da União Europeia. Para ficarmos um pouco vaidosos – pecando um pouco, é certo, po-demos comparar-nos com os que estão pior.

N/D
9 Nov 2003

Quando os chefes de governo de dois países se encontram, os meios de comunicação social cruzam múltiplos indicadores, que ora nos favorecem ora nos prejudicam. O encontro de Durão Barroso com José Maria Aznar mostrou-nos resultados desconfortáveis. O encontro de Durão Barroso com José Eduardo dos Santos alimentou o nosso orgulho. Em vez de, portanto, sermos em quase tudo os piores da União Europeia, podemos, também em quase tudo, ser os melhores do Terceiro Mundo. Se começarmos as comparações pela Presidência da República, verificamos facilmente que Jorge Sampaio é melhor do que todos os presidentes das repúblicas do Terceiro Mundo. E, em boa verdade, o presidente português é muito melhor do que a generalidade dos presidentes das repúblicas europeias.
Não é preciso ter contribuído para a eleição de Jorge Sampaio para o achar muito melhor do que, por exemplo, Jacques Chirac, o presidente francês, que só por causa do cargo que ocupa não anda pelos tribunais a prestar contas pelo que fez enquanto presidente da Câmara Municipal de Paris. Estabelecer uma comparação entre Jorge Sampaio e José Eduardo dos Santos, o presidente angolano, para usar outro exemplo, seria ofender, absurda e gratuitamente, o nosso presidente.

Por cá, são muitos os que lamentam permanentemente as mega operações de desordenamento do território e destruição urbanística que têm descaracterizado o país. Quem se passeia por aí ao acaso imagina os suores frios que a ideia de planeamento, ou, melhor, de um desenvolvimento planificado, deve provocar a tantos autarcas e aos empreiteiros seus amigos. Mas tudo isto, de repente, se torna aprazível em comparação com Angola. Neste país, em vez de loteamentos com prédios colados a prédios e rotundas com esculturas, há campos de minas que confinam com outros campos de minas. Portugal está mal, mas, se compararmos com Angola, até está benzinho.

Por ser a autora de um livro que acaba de chegar às livrarias, Maria José Morgado tem concedido bastantes entrevistas em que tem denunciado a corrupção que há em Portugal. A magistrada do Ministério Público julga que a corrupção continua a crescer como um cancro em Portugal, vendo-se-lhe o rasto nas autarquias, no futebol, na construção civil, nos paraísos fiscais, na impunidade dos senhores da droga, no financiamento dos partidos.

A apreciação corrobora o mais recente relatório da Transparency International sobre a percepção da corrupção em mais de uma centena de países, divulgado no mês passado, que indica que Portugal é o 25.º país menos corrupto da lista. Se comparada com a dos outros países da União Europeia, a posição portuguesa é vergonhosa, mas ela é honrosa relativamente ao posicionamento angolano. É que Angola é considerada como uma das cinco nações mais corruptas a nível mundial. Segundo o relatório referido, Madagáscar, o Paraguai, a Nigéria e o Bangladesh salvaram Angola de ser considerado o país mais corrupto.

A colocação de Maria Elisa num posto diplomático na Embaixada de Portugal em Londres causou polémica. Desde logo, porque a jornalista não possui as habilitações académicas que a lei impõe aos ocupantes do lugar de conselheiro cultural. Além disso, Maria Elisa também não tem qualquer competência para o exercício do cargo.

Mas a ausência de qualquer currículo não é tão grave como o problema de excesso de currículo, digamos assim, de Pierre Falcone, que é, desde Outubro, o novo ministro conselheiro de Angola junto da UNESCO em Paris. Ao ocupar este cargo, o traficante de armas adquiriu uma imunidade diplomática que lhe permite escapar aos processos judiciais que contra ele correm em tribunais franceses. O director-geral da UNESCO, Koichiro Matsura, disse que a nomeação punha “em risco a reputação da organização”, mas isso é um assunto irrelevante para a cleptocracia angolana.

Em múltiplas áreas, Portugal ganha na comparação com Angola, que depois de amanhã celebra mais um aniversário da sua independência. Até em matéria de entrada e saída irregulares de diamantes. Entre nós, conhecemos tristes cromos, como o ridículo José Castelo Branco, que entram com diamantes não declarados. Mas, em Angola, os diamantes que se traficam prejudicam directa e gravemente quatro milhões de pessoas vítimas de uma guerra que os ditos diamantes têm ajudado a financiar. Uma guerra que não cessou e que prossegue hoje em Cabinda onde as tropas angolanas estão a cometer, de um modo sistemático, crimes contra a humanidade, conforme refere um relatório, divulgado há dias, baseado em testemunhos que padres católicos recolheram nos últimos 12 meses.

Em relação às tragédias, cultiva-se, entre nós, uma indiferença selectiva. Por isso, as gentes de Cabinda não poderão contar com a solidariedade portuguesa. Nenhuma pressão forte se fará sentir em Portugal sobre o governo angolano para o obrigar a parar os crimes que tem patrocinado no enclave. Em matéria de solidariedade ainda temos muito a aprender. Com os moçambicanos, por exemplo. Num dos países mais pobres do mundo, acabaram de ser reunidos 400 dólares para ajudar as vítimas dos incêndios que este ano ocorreram em Portugal.




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